A comunidade de Jesus e a minha comunidade

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

 

O relato evangélico de Jesus na sinagoga de Nazaré, sua comunidade (cf. Lc 4, 11-24), nos permite compreender a importância do lugar “onde se tinha criado” (v.16). São grandes as diferenças culturais que nos separam da Palestina do tempo de Jesus, bem como a compreensão do conceito de família, cultura e religião. Contudo, alguns elementos continuam a nos desafiar hoje. Nazaré, na Galiléia, é o pequeno e insignificante lugarejo onde Jesus viveu a maior parte de sua vida. Para Jesus e para nós indica o lugar onde pisamos, o nosso tempo, a nossa terra natal, nossa história pessoal, nossa família, nossa realidade, a nossa cultura e nossa comunidade de fé. O caminho humano e cristão não é virtual, mas feito da concretude real de pessoas, fatos, alegrias e sofrimentos. É o fragmento do tempo e do espaço que, como pura graça, nos foi dado poder viver.

“Conforme o seu costume, entrou na sinagoga no sábado” (v. 16). Era a sua comunidade de fé onde todos iam no dia sagrado, que para nós é o Domingo. Aqui cabe-nos a pergunta sobre a importância que damos ao Dia do Senhor. “Levantou-se para fazer a leitura” (v.16); “abriu o livro” (v.17), indicam que a partir da Sagrada Escritura a comunidade se encontrava e esta era familiar a Jesus. Ali aprendeu a escutar a Palavra e a compreendê-la com as pregações. A fé cresce e se alimenta constantemente com a Palavra. Não somos nós que lemos a Palavra de Deus, mas é a Palavra de Deus que nos lê. Não somos nós que a interpretamos, mas é ela que nos examina, revelando tudo o que habita em nosso coração e no mundo. Ali aprendeu a história do seu povo, suas tradições. Ali encontrou sentido para viver e compreender que sua história pessoal estava inserida numa história maior, a do seu povo, o povo eleito, na dinâmica das alianças de Deus e das profecias. A comunidade revelou a Jesus o rosto do Deus libertador e da Aliança, o Deus que caminha com seu povo. Só podemos ser cristãos na comunidade, no grupo, como Igreja. Ser cristão é ser-com, o contrário de ser individualista. O individualismo é um vírus letal para a vida cristã.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção” (v.18). Na profecia de Isaías, Jesus compreende sua identidade e sua missão. Ele é o “ungido”, o Messias. Seu projeto é claro: tem um olhar preferencial pelos sofredores, por aqueles que vivem angustiados, pois Deus se compadece deles. Jesus mostrou o rosto compassivo de Deus por eles. A identidade e a missão de Jesus nos dizem com clareza que a salvação não consiste somente no perdão dos pecados, mas também na proximidade misericordiosa com todos os tipos de sofrimento. Esta postura não é uma opção, é uma exigência evangélica. É o Espírito que habita em nós pelo nosso batismo que nos consagra e envia para vivermos as obras de misericórdia hoje.

“Tinham os olhos fixos nele” (v.22). Partir sempre de Jesus, voltar sempre a Ele. Pois nossa fé tem um nome, um rosto, um projeto, é uma pessoa: Jesus Cristo. Manter-se sempre no caminho com Ele. Ir fazendo um processo permanente de conhecimento e “con-figuração” a Ele. “Corro para alcançá-lo, pois já fui alcançado por Cristo Jesus” (Fl 3,12). A vocação batismal é um chamado à santidade, sermos como Ele. Quando não colocamos Jesus Cristo e seu Reino no centro, criamos divisões e disputas. Nele “somos todos irmãos” (Mt 23,8). Seu projeto de amor pela humanidade acontece hoje, comigo, conosco. Somos contemplados neste projeto. Qual a minha resposta? É impossível ficar indiferente diante de Jesus Cristo!

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