A harmonia é enfadonha

Dom Aloísio Roque Oppermann
Arcebispo Emérito de Uberaba (MG)
Como sociedade não somos atraídos pela normalidade da vida, mas pelo conflito. Acompanhando os noticiários, ficamos sabendo dos sinistros automobilísticos, dos furacões avassaladores, de crimes bárbaros, de divórcios decepcionantes, de debates ásperos. Provavelmente nunca se falará de reuniões de grupos de reflexão para resolver problemas, nem de algum irreligioso agnóstico que se converte à fé cristã. Novela boa é aquela que tem muita intriga, traições, bate-bocas, maldades e confusões sexuais.

O que nos atrai são os conflitos e as discórdias, e quanto mais cruéis, melhor. Também no seio das comunidades somos “vidrados” numa boa briga. A virtude é uma notícia insossa. Linha pastoral boa numa Paróquia é discutir sobre movimentos ou pastorais, CEBs, teologia da libertação, e adotar uma postura de resistência diante da maioria. Apreciamos facções beligerantes. Na prática, não gostamos de substantivos, que nos levam ao essencial da fé. Mas amamos os adjetivos, que nos distraem, e tornam a vida mais interessante. Abandonamos o essencial em favor do acidental.

A vida política sempre foi um campo fértil para os litígios. Não sou nenhum cético sobre atividades políticas, que podem ser decisivas para um mundo melhor. Jesus até estimulou a participação social e política, sob a condição de se buscar o bem comum.  “Quem quiser ser o primeiro, seja o servidor de todos” (Mc 10, 44). Os grandes políticos não podem ser vingativos, nem perseguidores, nem desonestos. Infelizmente, a história humana está repleta de assassinatos, de punhaladas, de venenos mortais, de tiros, de exílios e prisões contra pessoas públicas. Isso provém em grande parte – descontados os inúmeros casos de desequilíbrios psicológicos – de pessoas que se sentem impossibilitadas de atingir o poder.

Um dos grandes valores da democracia é justamente o debate, pelo qual se pode sublimar a nossa tendência à violência. Em vez de matar os adversários, se procura vencê-los por melhores propostas, por demonstrações de competência. Para as eleições que se aproximam, os debates não devem ser cenas de pugilato, nem de baixarias. Mas sim, um confronto saudável, que leve a tempos melhores, e  garanta que os bens públicos serão geridos com lisura.

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