A história da salvação – realização do plano divino

O começo do Ano Litúrgico, como igualmente, dentro de mais uns trinta dias, do Ano Civil, convida-nos a uma reflexão sobre a existência do homem sobre a terra e sobre o plano divino, tanto da nossa criação e presença no mundo, como, sobretudo da sua Providência que coloca nas mãos de nossa liberdade, o destino eterno.

Para nós, que vivemos no hemisfério sul, fica, talvez, um pouco difícil entender a cronologia que situa estas datas nestes meses de dezembro e janeiro, quando vivemos em pleno verão, de dias de calor escaldante e tempestades. Não assim para povos do hemisfério norte, cuja cultura herdamos. No frio rigoroso do inverno, desejava-se, ardentemente, o sol. Os dias escuros e as noites que adentravam pelo dia lembravam o caos, “a terra vazia e vaga,as trevas cobriam o abismo.”(Gn. 1,2)

Celebrava-se então o início da vida, o retorno do sol, depois da noite mais longa do ano, que iria refletir nos dias dos meses seguintes, na primavera, no verão e na colheita dos frutos.

Assim o nosso Ano Litúrgico, na profundidade da noite, quando a Mão de Deus nos arrancou do nada e tudo destruímos pelo pecado, Ele fez luzir para nós a esperança, no Filho da Mulher, dando-nos a entrever a vitória da humanidade sobre a serpente (Gn. 3,15)

E à luz desta esperança, sempre de alguma forma presente entre todos os povos, caminhou a humanidade na construção do mundo. Abraão acreditou na transcendência e na Palavra. Esta fé se firmou no meio de um povo, sempre reanimada pelos patriarcas e profetas até atingir a plenitude dos tempos.

Desceu, então, dos céus o Filho de Deus, o Desejado das colinas eternas e, num mistério de amor inefável, assumiu a natureza humana no seio de Maria.

Ela nô-lo anuncia, cantando as maravilhas de Deus, que “socorreu Israel, seu servo lembrado de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais em favor de Abraão e de sua descendência para sempre” (Lc. 1,54)

É o que celebramos na alegria deste tempo do Natal, precedido pelos quatro domingos do Advento, de espera do Senhor.

Segue a Liturgia. Contraditado pelo orgulho dos homens, Ele cresceu, “estabelecido como luz das nações a fim de que minha salvação chegue até as extremidades da terra” (Is. 49, 6). Na primavera, quando germinam as plantas e a natureza está em festa, no terceiro dia, surge, ressuscitado o Cristo, espancando com a sua Luz as trevas da morte. É a Páscoa.

É o Homem Novo que enche com sua presença todo o universo, santificando todas as coisas, o Primogênito de toda a criatura e em quem tudo é conciliado para a glória de Deus.(Col. 1,15-20)

Na liturgia do tempo subsequente, que chamamos de “tempo comum”, comemoramos todos aqueles que conformaram sua vida com a dele, especialmente Aquela que antecipou-nos a todos, sendo glorificada em corpo e alma por Aquele que a criou e pela qual, em seu Filho, se tornou participante de nossa humanidade.

O tempo do Advento deve nos preparar para que deixemos esta história da salvação impregnar-se em nós. A vinda de Cristo no tempo já se deu. Mas na história da salvação ela sempre é atual. Vivemos em nós e nos dias de hoje, a presença de Deus em seu Cristo. Como na origem, o Espírito de Deus pairava sobre as águas, O Espírito Santo está agindo em nós e na história até a plena glorificação do universo.

Aguardando este Dia, quando o Cristo virá na sua glória, repitamos, em humilde súplica: “Vem, Senhor Jesus (Ap. 22,20.)

Dom Eurico dos Santos Veloso

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