A Igreja e a nova realidade da África, que não é a mendiga do mundo

“Quando se fala de cultura africana, é preciso estar atento, porque o discurso sobre a autenticidade africana corre o risco de revelar uma construção ideológica e

passadista. A cultura africana hoje é mais moderna do que as representações étnico-folclóricas ou tradicionais, feitas por europeus ou africanos.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, em artigo para o jornal Corriere della Sera, 05-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Iniciou-se o Sínodo dos bispos para a África. Depois da viagem de Bento XVI ao Camarões e à Angola em março passado, a Igreja convoca agora os seus Estados gerais sobre o “continente doente”. Lá, o catolicismo conheceu um crescimento imponente no século XIX. Os católicos passaram de menos de dois milhões em 1900 para mais de 160 milhões hoje. O tempo do colonialismo foi também o de um intenso período missionário. A Igreja não foi embora do continente seguindo as potências coloniais. Desde os anos 50, africanizou os seus quadros, assumindo um rosto africano.

Porém, conheceu graves dificuldades e perseguições. Não só os católicos. O patriarca ortodoxo da Etiópia, Paulos (convidado para falar no Sínodo), conheceu a dura repressão do ditador Menghistu, que o prendeu e assassinou tantos religiosos.

Nos anos 90, a Igreja na África teve um papel central nas transições da ditadura para a democracia. Grandes figuras católicas se impuseram desde o fim da independência, como o senegalês Senghor (um dos poucos líderes do seu tempo que deixou o poder espontaneamente) ou o presidente Nyerere da Tanzânia. E hoje? O catolicismo é uma condição de passagem, mesmo continuando a ser um dos maiores recursos humanos da África.

Mas em que sentido?

A Igreja é desafiada pela vitalidade do Islã, às vezes radical. Mas também por uma mensagem cristã alternativa: Igrejas livres e seitas propõem um cristianismo quente, milagroso, sentimental. Bento XVI falou sobre os riscos do “fundamentalismo religioso, misturado com interesses políticos e econômicos”: “Grupos que se remetem a diversas pertenças religiosas – disse ele ontem – estão se difundindo no continente africano; fazem-no em nome de Deus […] ensinando e praticando não o amor e o respeito à liberdade, mas a intolerância e a violência”.

A Igreja ressente-se pela diminuição e pelo envelhecimento dos missionários do Ocidente. Na África, as igrejas católicas estão sempre cheias, mas em alguns países o catolicismo tem uma posição menos central do que ontem e é sumamente desafiado pelo pluralismo religioso e cultural. São problemas claros para Bento XVI, que, no ano sacerdotal, olha com atenção para os 34 mil padres africanos.

A África conta com padres jovens, corajosos, generosos, mas às vezes tentados pelo exercício de um “poder” clerical. Não se pode generalizar, mas o estilo do poder, típico das sociedades africanas, pode contagiar bispos e padres. Essa situação tem uma recaída nos leigos católicos. As grandes figuras de “leigos” (Nyerere ou Senghor) estão em declínio. Na África, os leigos (e as religiosas), decisivos na vida da Igreja, são muitas vezes só os colaboradores dos padres. Vê-se isso pela ausência dos católicos em muitas classes dirigentes. O Sínodo africano dará vitalidade à Igreja no continente em todos os seus componentes?

O Papa Ratzinger propôs, desde cedo, não ajustamentos estruturais, mas a “alta medida da vida cristã, isto é, a santidade”.

Diante dos bispos, abre-se o cenário das guerras, das pandemias e da pobreza do continente. Mas a África não é toda “negra”. Apesar das crises, ela retorna ao centro do interesse mundial. Vê-se isso pela política ativa da China. Em um encontro recente, promovido pela Fundação Banco di Sicilia e pela Ambrosetti, revelou-se como a África é uma grande oportunidade para as empresas europeias.

Trinta e três países africanos já crescem de um ponto de vista econômico. Está emergindo uma nova geração jovem, pronta para aproveitar as ocasiões da globalização, com um horizonte cultural diferente do tradicional.

Quando se fala de cultura africana, é preciso estar atento, porque o discurso sobre a autenticidade africana corre o risco de revelar uma construção ideológica e passadista. A cultura africana hoje é mais moderna do que as representações étnico-folclóricas ou tradicionais, feitas por europeus ou africanos.

A compreensão da África deve ser mais articulada do que aquela compreensão dolorosa, mas simplificada, do tempo das ditaduras.

A sociedade, que se complexificou, não é mais tão naturalmente religiosa como tanto se disse. Se grandes massas ainda estão suspensas entre passado e futuro, muitos africanos deram um salto para frente. Pela rapidez das mudanças, talvez os bispos católicos deverão ler a realidade e não confiar em estereótipos, para entender melhor o mundo dos seus fiéis. O Papa deu exemplo disso ao falar de força atrativa do “materialismo prático”.

Persistem graves situações de miséria, guerra e doenças. A cura da Aids precisa de importantes recursos. A África, sozinha, não irá conseguir. Ela precisa de ajuda, de investimento, de inserção na rede mundial. Porém, ela pode dar muito em todos os níveis. Não é a mendiga do mundo.

É significativo que, no ano da crise econômica, a Igreja coloque a África no centro: “A África representa um imenso pulmão espiritual para uma humanidade que parece em crise de fé e de esperança”, disse o Papa. Mas esse pulmão pode adoecer. Os bispos católicos não podem gerir só um grande patrimônio religioso, mas sim ir em profundidade e arriscar o caminho do futuro.

Fonte: IHU

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