A lama da indiferença

Dom José Gislon
Bispo de Erexim

 

Estimados Diocesanos! Na história da humanidade, as datas sempre foram um referencial que serviram para marcar os acontecimentos épicos de uma civilização, de um povo, de imperadores, de reis e profetas; dos fundadores das várias religiões e correntes religiosas em todos os cantos do nosso planeta.

No calendário do ano civil, praticamente, todos os países do mundo se orgulham de recordar o dia da independência, de uma revolução ou guerra que marcou um determinado momento da sua história e da sua vida. As datas celebradas representam quase sempre um feito heróico, mas também um recomeçar, tendo no coração a esperança de um novo amanhã. Podem também ser o símbolo de um momento marcado pela dor e o sofrimento. Recordar ou comemorar é sempre uma oportunidade para manter viva a história e lembrar às novas gerações que o ser humano tem dentro de si a capacidade de fazer o bem, mas também de infligir sofrimento e dor ao seu semelhante.

Nós, brasileiros, recordamos várias datas consideradas importantes na história da nossa “jovem” nação brasileira, que nos fazem percorrer a linha do tempo, pontuada por fatos de “bravura” e pelo descaso e omissão em relação à “vida das pessoas”. A partir deste ano, o dia 25 de janeiro, entrará para a história do nosso país não como um fato para ser comemorado, mas lamentado e pranteado, lembrando de todos aqueles e aquelas que foram sepultados vivos por um rio de lama, enquanto estavam nas suas casas, no ambiente de trabalho ou descansando em merecidas férias no interior do Estado de Minas Gerais.

Por mais breve que seja a vida de quem passa por este mundo, ela tem duas datas marcantes, a chegada e a partida. Podemos dizer que a chegada é sempre esperada, salvo raras exceções. A partida, porém, é cheia de imprevistos; pode acontecer em decorrência de diversos aspectos, como a fragilidade do corpo, a ação dos fenômenos da natureza, a imprudência ou descuido nosso ou dos nossos semelhantes que provoca muitos acidentes no dia a dia, a violência, etc.. Mas fica difícil entender e justificar a perda de tantas vidas, num único dia, por um acidente que poderia ter sido evitado, se tivessem sido levadas em consideração as recentes lições de uma tragédia similar.

Profundamente entristecidos pelo ocorrido, manifestamos nossos sentimentos às famílias enlutadas pela perda de seus entes queridos, sepultados por um mar de lama em Brumadinho. Que o mar de lama da ganância de organizações econômicas, da indiferença e da omissão do poder público não mate também a esperança de justiça dos familiares e sobreviventes.

 

 

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