A mistificadora Religião Civil

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ) 

Já de tempos memoráveis, os governos no mundo têm usado e abusado da chamada Religião Civil Nacional. Trata-se de uma instrumentalização da religião a serviço do poder e dos seus mandantes. Transferem-se, para a órbita governamental, símbolos, ritos e preces que seguem a lógica da razão de Estado, legitimando atos e políticas oficiais, e dando a unção do sagrado aos dirigentes.

Os profetas de Israel já denunciavam o culto vazio da época da monarquia, religião idolátrica que quebrava a aliança com o Deus da Vida e sacrificava o povo. É triste de se ver os pastores que vão detrás do canto de sereia do César de ocasião, prestando suas bênçãos e apoios, não à justiça, ao direito e ao bem comum, mas aos interesses dominantes.

Por isso, a defesa da laicidade de Estado, não do laicismo autoritário e ideológico, é um princípio constitucional que evita o aparelhamento do Estado por facções religiosas que perseguem posições de privilégio e as benesses do poder. O cristianismo sempre rezou pelas autoridades governamentais, intercedendo, mas guardando a distância profética para defender, nos pobres, a dignidade da pessoa humana e o bem comum social.

Afirmar o diálogo, a cultura do encontro, o debate cordial e amplo, é uma coisa, prostrar-se na subserviência de quem se aproxima do poder para tirar vantagens e garantir votos, é outra. O messianismo político pretende conferir à órbita do político aquilo que esta esfera não pode dar: a salvação, a gratuidade de Deus, a comunhão da fé e da caridade.

A política arte e ciência do bem comum, precisa de políticos servos de Deus e dos pobres, não de ídolos de pés de barro, ou salvadores da pátria, pois estes sempre nos levam ao culto, a sua personalidade, ao autoritarismo e a submissão. Deus seja louvado!

 

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