A nova Carta Encíclica de Bento XVI: A Caridade na Verdade – II

Começamos na semana passada a refletir resumidamente sobre este documento papal. Continuemos a fazê-lo também nesta semana. No Capitulo II, a Carta Encíclica trata expressamente do desenvolvimento humano de nosso tempo, colocando em destaque o pensamento de Paulo VI, para quem o desenvolvimento indica, antes de qualquer coisa, o objetivo de fazer sair os povos da fome, da miséria, das doenças endêmicas e do analfabetismo.

E do ponto de vista econômico, o desenvolvimento, objetiva à participação ativa e em condições de igualdade no processo econômico internacional; do ponto de vista social, à sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do ponto de vista político, a consolidação de regimes democráticos capazes de assegurar a liberdade e a paz.

O Capitulo III trata da fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil, e afirma que a caridade na verdade, na dimensão da doação, que exprime e realiza sua transcendência no meio social: “A caridade na verdade coloca o homem perante a admirável experiência do dom. A gratuidade está presente na sua vida sob múltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e utilarista da existência. O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência.”

O Capitulo IV trata de um tema importantíssimo e também atualíssimo: desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente, ao chamar a atenção dos povos não só para os direitos, mas também ao convocar toda humanidade a uma nova reflexão de que os direitos pressupõem deveres, sem os quais se transformam em arbítrio: “A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever » [105]. Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretensão de que não devem nada a ninguém, a não ser a si mesmas. Considerando-se titulares só de direitos, frequentemente deparam-se com fortes obstáculos para maturar uma responsabilidade no âmbito do desenvolvimento integral próprio e alheio. Por isso, é importante invocar uma nova reflexão que faça ver como os direitos pressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma em arbítrio [106]. Assiste-se hoje a uma grave contradição: enquanto, por um lado, se reivindicam presuntos direitos, de caráter arbitrário e libertino, querendo vê-los reconhecidos e promovidos pelas estruturas públicas, por outro existem direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade [107].”

O Capitulo V convoca toda família humana a superar a solidão, uma vez que do isolamento resultam a pobreza e as dificuldades em amar, concluindo que o desenvolvimento dos povos depende do reconhecimento de que somos uma só família: “Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas frequentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma originária e trágica reclusão do homem em si próprio, que pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um fato insignificante e passageiro, um « estrangeiro » num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num Fundamento [125]. A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projetos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias [126]. A humanidade aparece, hoje, muito mais interativa do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende, sobretudo, do reconhecimento que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros [127].”

A encíclica do Papa Bento XVI, esperada e profunda, continua a iluminar a nossa caminhada social como cristãos. Continuaremos na próxima semana a examiná-la.

Dom Orani João Tempesta

Escreva um Comentário

Ver todos os Comentários

Seu endereço de email não será publicado. Também outros dados não serão compartilhados com a terceira pessoa. Campos obrigatórios marcados como * *

Share This