A pedagogia da Cruz

Dom Jaime Spengler
Arcebispo metropolitano de Porto Alegre (RS)

A Cruz está associada a todas as formas de sofrimento, fraqueza e privações da vida humana e cristã. No entanto, para o cristianismo ela não é um mero ornamento ou símbolo. Ela é expressão do mistério do Amor de Deus.

Ao longo da história, a fé e a piedade cristã descobriram no mistério da Cruz uma fonte inesgotável de ensinamentos e motivações para a vida dos discípulos de Cristo.

Contudo, em tempos recentes, em distintos setores da sociedade, surgem vozes exigindo a retirada da Cruz de lugares públicos. Junto com isso, se chega ao absurdo de exigir que não se faça qualquer referência ao evento cristão, sobretudo nas escolas e ambientes universitários.

É certamente verdadeiro o fato de que a história do cristianismo está marcada por situações obscuras. Mas também é verdade que à sombra da Cruz se desenvolveu uma compreensão do divino e do humano, do céu e da Terra que marcaram – e continuam marcando! – a sociedade ocidental.

Os discípulos do Crucificado não exigem dos não crentes viver ao seu modo, mas pedem a estes que lhes permitam viver livre e respeitosamente segundo a sua fé; ou seja, que possam continuar seu itinerário existencial à sombra da Cruz.

O cristão é convidado a contemplar a Cruz de Cristo a fim de alcançar a graça da fidelidade e assim ser no mundo testemunho do amor do Senhor que “nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).

Um escrito do segundo século ilustra o que significa ser fiel e viver à sombra da Cruz. Os cristãos “não se distinguem das outras pessoas, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, (…) nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles. (…) Testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. (…) Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na Terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida” (Carta a Diogneto).

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