A Providência e o Planeta

Dom Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ

Estamos lendo, aos domingos, os textos do Sermão da Montanha. Durante esses domingos que se encerram neste próximo, antes da Quaresma, vai se tecendo a figura da nova humanidade nascida de Cristo. Aquilo que parece impossível só se torna possível pela graça de Deus.

Antes de começarmos o rico tempo da Quaresma, que traz consigo a reflexão da Campanha da Fraternidade, a qual nos chama à sobriedade no trato com o nosso Planeta, creio que o tema da ganância e do apego aos bens que ouvimos no domingo passado nos ajuda a entrarmos de coração aberto para este tempo em que o jejum, a esmola e a oração estarão centrando o nosso caminho de conversão.
É um tema que une a Campanha da Fraternidade do ano passado com a deste ano. Se sofremos com a depredação do nosso planeta é porque, em última análise, há por baixo o interesse dos ganhos exagerados e uma ganância cada vez maior.

Porém, onde reina a pobreza e miséria física, existe sempre uma pobreza moral que a produz e gera. Se a pobreza moral não é do pobre e necessitado, é sempre de quem está perto ou em torno deles. Mas trata-se sempre de pobreza moral e espiritual. Deus é a Providência Divina, é Pai amoroso que não deixa faltar nada aos seus filhos. A relação de paternidade descendente deve, porém, tornar-se relação de filiação ascendente. Pai e filhos devem se encontrar na maior comunhão de vida e existe comunhão somente na obediência a qualquer vontade de nosso Pai que está nos céus.

Todo homem deve construir essa relação de filiação ascendente, elevando-se constantemente para Deus, e fará isso se separando de todas as relações de servidão, de escravidão, de dependência do vício e do pecado com as coisas deste mundo e, especialmente, com a fixação do coração na riqueza.

Jesus é claro: ou se ama a Deus ou a riqueza. A esses dois senhores jamais se poderá amar ao mesmo tempo. Um exclui o outro. Um nos distancia do outro. São dois senhores que querem o coração, a mente, os desejos, o corpo inteiro de um modo exclusivo.
Como convencer o homem de que se pode abandonar totalmente nas mãos do seu Deus sem faltar nada, mas com a abundância e o superávit em sua casa? Jesus convida os discípulos a observarem os pássaros do céu. Esses não semeiam, nem recolhem, não acumulam, não têm contas bancárias, não possuem nenhuma reserva de ouro, e, apesar disso, nunca morrem de fome. O Pai Celeste, que é o seu Criador e sua Providência, nutre-lhes, sustenta-lhes, alimenta-os todos os dias.

Também os lírios dos campos não fiam e não tecem, não possuem fábricas para confeccionar as suas roupas. No entanto, nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles.

Os pássaros e os lírios são hoje, e amanhã desaparecem. Mas o homem, ao invés, possui uma vocação eterna. Ele é chamado à comunhão com Deus no céu, no seu Paraíso. Sendo a dignidade do homem infinitamente superior àquela de todos os outros seres, infinitamente maior é o amor que o Pai derrama sobre ele. Ele derrama, porém, com uma condição: que o homem procure o reino de Deus e a sua justiça. É justiça, é direito de Deus não dar o coração às criaturas para a riqueza, porque é tudo do Pai celeste.

Estamos, portanto, diante de uma provocação que nos permite aprender, não tanto a ser pré-videntes, mas a confiar na Providência. Portanto, não a nossa pre-vidência, mas a Providência de Deus, que nós não aprendemos a partir de livros ou discursos de outros, mas a partir da própria experiência. Enquanto isso, a partir das coisas à nossa volta (o mundo, aquele genuíno, onde abundam os sinais de Deus), da vida das pessoas que encontramos … da vida que se renova a cada manhã. Então, permitirei a mim, convidar a todos para “escalar” a montanha, ou seja, para firmar-se por um momento para ver tantos sinais da presença de Deus em nossas vidas… uma presença concreta. O que Deus tem haver com nossas vidas! E bem-aventurado é aquele que consegue ver que Deus é o “quem tem haver” e, em seguida, escolheu-o como o fator determinante dos “cálculos” que fazes para a própria vida. Então, sejamos previdentes para deixar que seja a Providência a conduzir a nossa vida. Podemos fazê-lo, porque Deus vem em nosso auxílio.
Peçamos hoje para nós e para todos o dom da pouca fé,  aquela fé que faz Deus entrar em nossas vidas e que lhe permite fazer milagres.

Os temas das Campanhas da Fraternidade do ano passado e deste ano nos questonam sobre essa visão do mundo e das coisas, e a utilização que fazemos do nosso planeta. Que ao recebermos cinzas sobre as nossas cabeças na próxima quarta-feira, estejamos conscientes da necessidade de uma sincera conversão e aproveitemos cada instante da Quaresma para darmos esse passo, e, assim, na Vigília Pascal renovarmos com o coração aberto as nossas promessas batismais.

Que a Virgem Maria, Mãe da Redenção, que se tornou totalmente do Senhor, nos inspire a confiar na providência do Pai.

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Paulo, Bom Pastor

30/07/2008

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