A questão da Terra no Pará

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

Estamos apreensivos com os acontecimentos que estão correndo nestes últimos dias em relação à prisão do Padre Amaro em Anapu e tudo aquilo que se refere à questão da terra no Pará, Sul e Sudeste do Estado. Os conflitos agrários são diversos em todo o Estado de modo que é preciso pensar a reforma agrária como possibilidade de que todos tenham terra. A terra foi dada para todos, porque foi Deus quem a criou e não é só para algumas pessoas. O verdadeiro dono é o Senhor, e nós somos administradores da terra, jamais donos, como diziam os padres da Igreja, os primeiros autores cristãos. O perigo é que de administrador o ser humano torna-se dono da terra, afirmavam eles. Na nossa realidade é o que está acontecendo a posse da mesma e por isso os conflitos estão ali, as prisões e as mortes. Se a gente tivesse a consciência de que a terra é de todos, todos teriam um pedaço para usufruir para assim ter o seu sustento, o ganha pão de cada dia. A terra está se concentrando sempre mais nas mãos do latifundiário com o desmatamento de florestas, priorizando o gado e afastando sempre mais os pequenos agricultores e agricultoras que plantam algo na terra para o sustento. Existem muitos acampamentos de terra no Sul e Sudeste do Pará, e pelo fato de não terem aonde ir, ficam em algum canto de uma fazenda, ou mesmo ao longo das estradas do interior, de modo que os proprietários de terra muitas vezes ameaçam aquele povo, com agrotóxicos sendo jogados de um pequeno avião, sobre as suas casas ou pequenas plantações próximas, gerando um conflito de descontentamento entre o povo sofrido e levando doenças sobre as pessoas sobretudo as crianças que estão nestes acampamentos de terra. A terra está sendo um negócio muito forte entre o povo desta região, o que deveria ser um bem de todos, aonde todos poderiam usufruir da mesma para a sobrevivência e o louvor ao Criador. As autoridades civis, políticas deveriam olhar com carinho a questão da terra no Pará, porque já tivemos mártires como a Irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005, justamente em Anapu e outras pessoas que tombaram por causa da terra em nossa região ou mesmo da floresta como o casal José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, assassinados em 2011, no interior de Nova Ipixuna, Diocese de Marabá.

Confiamos neste momento para que haja a liberdade do Padre Amaro para voltar à sua paróquia e celebrar a Páscoa com o seu povo. É preciso lutar pela terra para todas as pessoas, contra o desmatamento de florestas, favorecer a vida do povo pobre que vive na sua terra. Como a terra nesta área é muito expressiva em minérios, e outros metais de valor, atrai a atenção das grandes empresas, e os proprietários de terra fazendo com que haja a concentração da terra sempre mais nas mãos de algumas pessoas. O latifúndio está reinando. Quem grita contra para tal situação corre o rico da perseguição, e as vezes da própria vida. Vamos nos unir aos que trabalham a terra para ter os alimentos próprios e proporcionar alimentos para as pessoas da cidade e assim haja a paz no campo, a concórdia e o amor. Estamos na semana santa, dias importantes em que meditamos a Palavra de Deus que nos faz irmãos e irmãs uns com os outros, aonde o Senhor sofrerá por cada um de nós, sendo injuriado, maltratado e condenado à morte, mas ao terceiro dia ressurgirá da morte, como o Primogênito entre os mortos. O Senhor Jesus Cristo nos ensina a amar a Deus, ao próximo como a si mesmo.

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