A soberba do ter

Dom Edney Gouvêa Mattoso
Bispo de Nova Friburgo (RJ)

 

Caros amigos, na semana passada refletimos sobre a tentação do ‘poder’ que envenena o coração, fazendo-nos indivíduos fechados ao próximo e às suas necessidades.

Outra tentação muito recorrente em nossos dias é a do ter. Quando o amor às coisas materiais ultrapassa, ou até mesmo anula, a responsabilidade pelo Bem comum, a consequência imediata é o desrespeito a dignidade da pessoa.

O Papa Francisco, ao meditar sobre a segunda tentação de Jesus no deserto, adverte para o risco de perdermos toda a dignidade pessoal, quando nos deixamos seduzir pelos ídolos do dinheiro, do sucesso e do poder, para alcançar a autoafirmação (cf. Ângelus, 10 mar. 2019).

Este modo de proceder revela a intenção de se pôr sempre no centro de tudo, usurpando o lugar de Deus, removendo-o da própria existência ou fazendo-o parecer supérfluo submetendo-o à nossa vontade. Ao tornar-se senhor de si, o homem abandona as verdades próprias de sua condição de filho de Deus e partícipe de uma família.

Cedendo à soberba de possuir bens temporais, esvazia-se dos valores fundamentais para a sadia convivência social, onde todos assumem a responsabilidade de zelar pelo bem comum e pela paz.

No contexto atual, o relativismo mina as bases sólidas da moral e da ética atacando-as pela lógica da falsa liberdade na busca da felicidade. Tudo é permitido quando o fim é a própria satisfação.

Infelizmente, este modo de pensar está cada vez mais inserido na sociedade moderna. É crescente o número de adeptos a ideologias que favorecem o aborto, a eutanásia, a corrupção e a desconstrução da identidade da pessoa humana.

Fixado no próprio eu, o soberbo pensa poder manipular toda a criação para dela usufruir egoisticamente dos seus bens. Agindo assim, faz com que a vida humana seja determinada por uma opção individualista, que muda com o tempo e com a cobiça de ser reconhecido pelos demais (cf. Amoris Laetitia, 56). “A vida torna-se simplesmente ‘uma coisa’, que ele reivindica como sua exclusiva propriedade, que pode plenamente dominar e manipular” (Evangelium vitae, 22).

O Papa Francisco, em mensagem para a Quaresma, alerta para o risco de perdemos a consciência de sermos filhos de Deus, deixando aberta a porta para “comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz (26 fev. 19).

A sede do ter nos faz olhar para todas as coisas e pessoas vendo nelas objetos que favorecem egoisticamente o meu bem-estar e prazer. É preciso abandonar o egoísmo e a soberba de olharmos só para as nossas próprias necessidades.

A Campanha da Fraternidade, é um instrumento valioso, que serve a toda comunidade como apoio e motivação para a conversão social. Este ano o tema proposto à reflexão é: Fraternidade e políticas públicas. Com o objetivo de estimular a participação em políticas públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, somos chamados a tomar nosso lugar na luta por fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade, que nos desinstala do nosso comodismo auto referencial.

Entrando neste deserto quaresmal, voltados para a Páscoa de Jesus, busquemos esvaziar nossos corações de tudo o que é supérfluo fazendo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. E com humildade nos esforcemos por reconhecer a riqueza de ser herdeiros da obra criadora de Deus e de sermos criados à sua imagem e semelhança, participando do próprio ser divino.

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