A Xenofobia e as Migrações

Em nossa reunião do Conselho Episcopal de Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunida em Brasília nesta semana,  emitimos uma nota sobre a Solidariedade aos migrantes tomando posição corajosa diante de um fato atual muito preocupante, que são as situações dos países diante das migrações.

A nota da CNBB tem a data de 21 de agosto, quinta-feira passada, e vi pouca repercussão na mídia em geral. No momento de tantas e variadas notícias, muitas vezes posições importantes se perdem diante de um farto noticiário.

A nota é muito clara com relação à posição da Igreja do Brasil: “vemos com apreensão e preocupação a adoção, por países para onde afluem numerosos grupos de migrantes, de medidas que ferem princípios básicos dos direitos humanos dos migrantes e suas famílias”.

E é muito interessante que esse posicionamento xenófobo aumenta nestes últimos tempos em países que se posicionam como modelos de democracia e respeito aos direitos humanos, que, muitas vezes, se tornaram juízes mundiais contra discriminação e crimes contra a humanidade! Aliás, representantes dessa sociedade, como professores mundiais, visitam os países que os recebem sem restrições para pontificar suas lições morais e cívicas como se seus países não precisassem primeiro de suas ações, talvez muito mais do que os que elem visitam fazendo seus discursos e cobrando atitudes!

Vivemos tempos difíceis! Chegamos tão longe no desenvolvimento das ciências e tecnologia e ainda marcamos passos com relação ao relacionamento humano. Hoje olhamos para esse lado do mundo, mas sabemos que temos problemas semelhantes também em nosso próprio continente americano e se fôssemos aprofundar, até mesmo em nosso país, tão cheio de migrações no passado e no presente, veríamos que existem preconceitos contra os migrantes como se eles fossem a causa dos problemas que existem em várias regiões.

O mundo recomeça a utilizar os princípios “totalitários”, que impede a locomoção livre das pessoas: quando alguém viaja se torna um “criminoso” até prova em contrário! A cada momento se pedem documentos cercado por todos os tipos de agentes. Agora que uma lei foi votada e que se impõe às leis de todos os países do bloco europeu, é o momento de nos perguntarmos sobre os rumos da humanidade.

É interessante que são os mesmos países que “outrora assistiram a emigração em massa de seus cidadãos”. Inclusive muitos de nós somos descendentes de tantos homens e mulheres que para cá vieram. “Aqueles que no Brasil aportaram, foram acolhidos e, gradativamente, integraram-se à sociedade local, contribuindo na construção da identidade e cultura nacionais”.

Sim, é por esse lado que olhamos: a liberdade de ir e vir e a grande contribuição dos movimentos migratórios que “são fatores de desenvolvimento humano e social”, pois “o migrante leva consigo sua força de trabalho, a riqueza de sua cultura, seus valores, sua religião”. “Muitos países já não podem prescindir da contribuição dos imigrantes como mão-de-obra em áreas específicas do mercado de trabalho”.

Embora saibamos que o tema é complexo e que há grupos que se aproveitam de situações para pressionar politicamente questões seculares, sabemos que tais medidas “podem representar retrocesso no caminho de integração dos povos e da construção de uma cultura de paz”. Até mesmo em nosso hemisfério sul lemos e vemos nos noticiários o que querem fazer com os nossos irmãos brasileiros que vivem em zona fronteiriça em países vizinhos nossos.

O que está realmente por baixo das decisões é, infelizmente, questão econômica. A rejeição aos pobres que batem às portas é porque têm medo que a presença deles vá fazer dividir um pouco os bens que acumularam. Isso faz com que reflitamos sobre os dois lados: primeiro sobre os países que não conseguem prover às necessidades de seu povo, não proporcionando “condições dignas de vida e perspectivas de futuro aos seus cidadãos”, obrigando-os, assim, a procurarem outros lugares para tentar viver com dignidade. O segundo aspecto é com os países que recebem os migrantes que são convidados a “encontrar formas adequadas e justas de acolher o estrangeiro, integrando os imigrantes como protagonistas de um novo momento para a humanidade”.

Nesse sentido, a nota da CNBB é forte em uma de suas conclusões: “os valores humanos e cristãos da solidariedade e fraternidade têm primazia sobre as leis da economia e do mercado”, ou seja, em geral vamos buscar a raiz de todos os problemas nessa direção que domina os relacionamentos humanos e também os países hoje, além das questões étnicas e ideológicas.

Os que assumem uma segunda pátria, que “é a terra que lhe dá o pão”, procurando “condições dignas de vida, move, no mundo globalizado e desigual, milhões de migrantes em direção aos países mais desenvolvidos”.

Diante dessas situações em que “muitas vezes o tratamento dado aos migrantes é injusto e humilhante, envolvendo detenção e prisão, perda de moradia, do emprego e dos bens, separação dos cônjuges e dos filhos”, na tomada de posição de nossa Conferência Episcopal repudiando essas “medidas que criminalizam os migrantes”, manifestamos nossa solidariedade “a todos os brasileiros e brasileiras no exterior, e de modo especial, aos que se encontram em situação de maior vulnerabilidade, com dificuldade de obter a documentação de permanência”, muitas vezes impedidos pela burocracia ou má vontade do Estado que os recebe e por isso estudando ou vivendo ou trabalhando “em clima de segurança e medo”.

Acredito que esse tema deveria ser aprofundado para que pudéssemos ver para onde caminhamos e que posições temos tomado em nossa sociedade, pois muitas vezes o preconceito começa com pequenas coisas e situações ao nosso lado, dentro de nossa casa, cidade ou estado. As guerras, a fome, a miséria, desigualdades sociais e tantas outras situações, juntamente com as necessidades de vida melhor ou até de estudos, diante da liberdade de ir e vir, deveriam encontrar soluções adequadas na comunidade internacional.

Mesmo sabendo que esses países em sua constituição não quiseram colocar que a vida e o ensinamento cristãos estão na base de sua cultura, ousamos lembrar junto com a Nota da CNBB: “diante da palavra de Jesus “Eu era estrangeiro e me receberam em sua casas (Mt 25,35), rogamos que prevaleça a solidariedade, baseada nos princípios da dignidade da pessoa, da proteção dos direitos humanos e da fraternidade universal.

Agora entendemos a rejeição do fundamento cristão de sua cultura e civilização: esse posicionamento demonstra que estão muito longe daquilo que seus antepassados ensinaram e viveram e até exportaram para o mundo com os seus migrantes. Por incrível que pareça, deveremos ser nós, que aprendemos deles a vida cristã, a ir novamente pregar o Evangelho em suas praças como novos missionários a descobrirem situações de direitos humanos e de fraternidade cristã.

Dom Orani João Tempesta

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