Acertar na vida

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

 

Ao nos alegrarmos com o testemunho feliz de uma vida matrimonial, sacerdotal ou consagrada, questionamo-nos sobre o que está na base de uma vocação acertada. O que não pode faltar na hora de perguntar-se e decidir sobre um caminho vocacional? A crise vocacional que estamos vivendo não tem uma única causa. É complexa, passando pelo contexto cultural e, também, pelo testemunho dos pais, dos padres e das consagradas. Não me refiro somente à vocação sacerdotal e religiosa, mas também à preocupante diminuição da busca pelo sacramento do matrimônio e do alto índice de casamentos que acabam em separações. Algumas causas são comuns.

O primeiro pressuposto é antropológico, humano. O ser humano não pode se compreender como voltado sobre si, narcisisticamente. À medida que vai passando da adolescência para a maturidade, o olhar e o projeto de vida abrem-se num horizonte de serviço, de doação de si. Somos frutos do antropocentrismo moderno e o momento atual só tem acentuado esta maneira de ver a vida. Superar o individualismo é uma condição essencial para poder viver qualquer vocação. A pessoa humanamente adulta projeta sua vida a partir de duas características básicas: a alteridade e a gratuidade. Quando o eu for a medida de tudo, o ser humano estará doente, imaturo. A sociedade atual está produzindo pessoas humanas intolerantes a qualquer adversidade e frustração. Esta também é uma causa do conhecido fenômeno do esgotamento psíquico crônico, de quem não consegue dar conta das exigências que faz a si mesmo ou da pressão social que pesa sobre esta pessoa. O “eu” não pode ser o centro.

O segundo pressuposto, para nós cristãos, é colocamo-nos num caminho de maturidade da fé. Crescimento humano e vida de fé andam juntos. Estabelecer uma relação dialógica com Deus, em Jesus Cristo, que manifesta seu amor por nós: “Antes que te formasses no ventre de tua mãe, eu já te conhecia” (Jr 1,5), foi a experiência do profeta Jeremias. A fé é resultado da visita de Deus em nossa vida, pedindo um espaço de acolhida. Na fé formamos uma comunhão invisível com todos os irmãos e irmãs, na Igreja.  Trata-se, então, de uma questão que ultrapassa o mensurável. Faz-nos perceber que não se trata, primeiramente, de um querer pessoal, de uma resposta à pergunta sobre o que me fará feliz, mas da acolhida e da resposta generosa, com suas provações, a uma pro-vocação de Deus e da realidade que nos cerca. Esta certeza não nasce repentinamente, mas é fruto de um colocar-se diante de Jesus Cristo e sua Palavra. A partir deste encontro, sempre vivo, é possível conhecer-se melhor e, como Maria dizer: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1, 38). A autorrealização será uma consequência não buscada em primeiro lugar. Com certeza, não passará pela lógica do sucesso econômico e profissional a qualquer custo. Então, podemos ajudar nossos jovens a buscarem um caminho que lhes ofereça sentido para a vida a partir da fé e acompanhá-los na sua decisão, tanto matrimonial como à vida consagrada e sacerdotal.

Porém, uma vida feliz será sempre com doação e serviço. É preciso ter a coragem de arriscar, de partir, de não ter tudo claro e já programado antecipadamente. A fé é uma luz que ilumina o caminho à medida que o projeto de vida vai sendo vivido. Sem a entrega pessoal, no sentido que Jesus nos ensinou de “deixar tudo e me seguir” (cf. Mc 10,28), haverá mais atenção sobre si do que sobre a missão a realizar. A doação de si será o pressuposto para a vivência acertada e feliz da vocação, mesmo que os frutos não sejam logo colhidos, pois existe muita alegria nos detalhes simples do cotidiano da vida.

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