Acordem como Sacerdotes e como Cristãos!

Dom Romualdo Matias Kujawski
Bispo de Porto Nacional 

“O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade;” (Is 61,1)

 Caros irmãos de nossa Diocese de Porto Nacional,

Dirijo-me de uma forma particular aos irmãos Sacerdotes aqui presentes, lembrando que somos Sacerdotes, isto é, Ungidos do Senhor! Na Celebração da nossa Missa da Unidade deste ano de 2019, gostaria de partilhar com vocês certas preocupações com o Povo de Deus e também conosco mesmo, que surgem no meu coração do Pastor.

1.º Povo de Deus.

* Tenho observado ao longo da caminhada que, graças a Deus, encontramos em nossas Paróquias muitas pessoas piedosas e religiosas, envolvidas com o trabalho pastoral. Encontramos também pessoas que somente frequentam a Missa e não se envolvem nas atividades pastorais. E como evangelizar tais pessoas que não frequentam a Igreja? Como colocar em relevo a importância de permanecer em união com Deus e a urgência de viver no estado permanente da Graça santificante? É um desafio pastoral enorme! Tenho impressão   de que muitos dos nossos fieis, na pratica diária, preferem resolver os problemas a partir de si mesmos e não da proposta de Deus. Isso espiritualmente é muito perigoso, pois pode leva-los em longo prazo, até perder a própria fé.

* Também me preocupa a exterioridade! Por exemplo, em um casamento, o que mais importa não é a celebração do Sacramento, mas as preocupações maiores giram em torno da beleza da decoração, vestidos caros, festa bonita… Isso faz com que o ato religioso perca a vitalidade. A preocupação maior deveria vir do interior, de dentro do coração, por meio de um autêntico e pessoal encontro com Nosso Senhor. Quantas vezes nos surpreendemos em nossas Paróquias que, apesar encontrarmos tantas pessoas piedosas na Igreja, a sociedade não nos segue e está piorando moralmente. O São João Paulo II, na exortação “Ecclesia in Europa” disse o seguinte: ´se não se implantou suficientemente Deus no coração do povo, surge dentro o vazio, que pode levar até todas as nações a silenciosa apostasia´.

 *Para tentarmos combater esse grande mal, um dos caminhos viáveis é valorizar a importância da catequese catecumenal e do aprofundamento intelectual da fé. Constata-se, que somente a experiência da fé emocional e tradicional não nos sustenta mais. Os nossos fieis são expostos à manipulações interesseiras, o que causa a vulnerabilidade e pode leva-los a não crer mais ou mesmo não sentir a necessidade de praticar a fé.

*Não é o meu objetivo esgotar todos os aspectos das dificuldades pastorais neste mundo moderno, mas chamar a atenção para que possamos nos sensibilizar com as diversas experiências das alegrias e tristezas no campo de pastoral. O nosso consolo está na Pessoa de Jesus. Ele está sempre conosco! Ele nos ungiu!

 2.º Sacerdotes (Nós)

 Na imagem central do Evangelho de hoje, contemplamos o Senhor através das pessoas que estavam presentes na sinagoga. Jesus levantou-Se para ler as Sagradas Escrituras. Foi-Lhe entregue o rolo do profeta Isaías. Desenrolou-o até encontrar a passagem do enviado de Deus. Leu em voz alta: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, (…) Me ungiu e enviou…” (Is 61, 1). E concluiu afirmando a proximidade tão provocadora daquelas palavras: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir”.

O Senhor nos incomoda a anunciar a boa nova. Fomos ungidos para essa tarefa. Não podemos deixar que as coisas deste mundo nos tire o olhar fixo em Deus. Darei algumas pistas que considero importantes para que possamos permanecer firmes em nossa caminhada:

*Procurar viver na presença de Deus. Quando a pessoa entra no vazio, este vazio será sempre preenchido pela escuridão do maligno.

*Diálogo perdão, unidade são sempre os frutos da Graça Divina. Sem Ela não conseguiremos trabalhar nas atividades pastorais. Por isso vale a pena seguir o exemplo de São João Paulo II e clamar sobre nós a Força do Alto: “desça o Espírito Santo e renova a face da terra, … desta terra” (Varsóvia, 1989)

 *Valorizemos o bem comum e a liberdade do discernimento, lembrando que o cristianismo significa pra nós a centralidade na Pessoa de Jesus Cristo! Não simplesmente uma doutrina, mas uma autêntica experiência do Amor Dele conosco.

*Escutemos os ensinamentos de Jesus: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10. 16).

*Somos convidados a ajudar cada pessoa a ter um encontro pessoal com Jesus Cristo. Essa é a nossa simples e humilde missão. Enxergar sempre o outro na ótica da salvação. O Sacerdote deve ajudar neste caminho, e não atrapalhar.

*E a nossa fé católica? Grande alerta contra as ideologias e contra a maldade que encontramos hoje na Imprensa, que tantas vezes distorce a verdade, destacando somente um aspecto da realidade. Este é o mal do mundo de hoje, que somos convocados a combater e, com a força do Espírito que nos ungiu, com certeza venceremos. Vencer como? Vencer com a Verdade de Jesus que convida a todos a abrir o coração a Deus, Verdade Universal. E neste caminho “somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer”. (Lc 17,10)

 *Como servos da Igreja de Jesus Cristo, nossa Igreja Católica, Somos convidados a ser a luz de Jesus para todos, convidando-os para a fé e à conversão.

Que a força do Espírito Santo fortaleça a cada um de nós. Não nos esqueçamos da unção que recebemos: “O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade;” (Is 61,1). Diante das dificuldades e tribulações que são próprias da natureza humana, sigamos o exemplo de Nossa Senhora, Mãe das Mercês, que se manteve de pé diante da cruz de Jesus. O Senhor continua a nos ensinar: “Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo.” (Jo 16, 33)

 Antecipadamente, faço votos de abençoada Páscoa a todos vocês: Surrexit Dominus vere, Aleluia!

“State in fide” (1Cor 16,13)

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