Adeus, dona Zilda Arns

A Arquidiocese de Londrina tinha um lugar especial no coração de Dona Zilda porque aqui, mais precisamente em Florestópolis, nasceu a Pastoral da Criança. No dia 13 de setembro de 2008 celebramos, com a presença dela, em Florestópolis, os 25 anos da Pastoral por ela fundada junto com D. Geraldo Majella. Em 2009, Dona Zilda esteve três vezes em nossa Arquidiocese.

A “criança” nascida em Florestópolis está presente e atuante em 20 países do mundo. De Londrina, para o mundo. Dona Zilda é mãe de milhares de crianças e adultos que hoje vivem graças à Pastoral da Criança.

Como é bom recordar e agradecer a Deus a vida e a pessoa desta mulher que podemos chamar de “personalidade do novo milênio”, que foi candidata ao premio Nobel da Paz. Pessoa doce e forte, maternal e profética, sorridente e batalhadora, simples e nobre. Todos somos testemunhas da sua competência, sua fé, seu amor à vida e uma incontestável veneração pela Igreja. Médica, sanitarista, mãe, educadora, cidadã, cristã, eis o que nela testemunhamos.

Quem não se emocionava ao vê-la caminhando nos rincões mais pobres do Brasil, entrando nos casebres das favelas, pegando as crianças no colo? Pois bem, esta mesma mulher nós a encontramos sentada nas grandes cátedras das Universidades, como também dialogando com governantes, bispos, políticos e pessoas de projeção social. Sabia articular e atrair as pessoas e instituições em prol da vida e da criança.

Graças à Pastoral da Criança continua caindo a mortalidade infantil, crianças recebem aleitamento materno e alimentação adequada, pais e mães aprendem a gerar e educar seus filhos com afeto, dignidade e religião. Basta recordar os “Dez Mandamentos para a Paz na Família”.

Dona Zilda morreu em missão, longe de sua família, mas bem perto dos pobres, excluídos e marginalizados. Ela é mãe dos empobrecidos, profeta da vida e promotora da família. Sempre combateu o aborto e demonstrou a centralidade da comunidade familiar, alertando em favor do salário justo, do emprego, como também enfatizando a necessidade de afeto, de religião e de valores na educação das crianças.

A espiritualidade cristã fala do martírio cotidiano, “martírio de amor” que se expressa no cumprimento das responsabilidades quanto na dedicação aos irmãos. Dona Zilda viveu o “martírio de amor”. Quanta doçura e quanta coragem encontramos nela. A ternura da mãe como zelo ardoroso e exigente do profeta, fizeram de dona Zilda uma pessoa especial. Conquistou respeito e credibilidade junto à sociedade brasileira e internacional. Lutou pela reforma sanitarista brasileira. Deixou um verdadeiro exército de 260 mil líderes da Pastoral da Criança. Não podemos perder a esperança, mas dar continuidade à missão em favor dos mais pequeninos.

Ela expressava um amor especial por Nossa Senhora. Encontrava na mãe de Jesus, a força para ser mãe de uma grande multidão de filhos e filhas adotivos. Podemos imaginar a festa no céu,  alegria, a luz e a glória que a envolvem na Casa do Pai. Agora é nossa intercessora desde o céu. Dona Zilda, como é bonito e profundo o cartão de Natal 2009 que enviou aos bispos e à Pastoral. A senhora via em cada criança, Jesus menino, Jesus criança.

A Pastoral da Pessoa Idosa é também obra de Dona Zilda, como também outras obras sociais. Perdemos uma liderança religiosa, política, nacional e porque não internacional. Evangelizava dentro de uma Igreja quando os escombros do terremoto ceifaram sua preciosa vida. Este acontecimento tornou-se um sinal dos tempos inesquecível. Ela amou tanto a Igreja e deixou um singular testemunho de fé e de evangelização. De pessoas assim o mundo já não é digno e por isso partem para a verdadeira pátria (cf. Heb. 11,38), e não morrem no coração, na memória e na saudade do povo. Dona Zilda, obrigado por tudo, descanse em paz. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos” (Jo 15, 14).

Dom Orlando Brandes

Arcebispo de Londrina – PR

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