Algumas considerações sobre o sacerdócio ministerial nos santos padres

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

A qüinquagésima sexta assembleia dos Bispos do Brasil debate a formação sacerdotal. É um tema importante para a vida do povo de Deus e do seguimento ao Senhor Jesus Cristo, porque buscamos sempre mais pessoas que vivam a alegria do pastoreio, doando-se ao Senhor pela causa do Reino e à sua igreja. É importante observar como os Santos Padres aprofundaram o sacerdócio, percebido como dom de Deus e como missão. Eles seguiram as pegadas de Cristo, o Sacerdote e Bom Pastor que deu a sua vida pelas suas ovelhas.

Eles também ressaltaram o que é o sacerdócio na sua dimensão maior, isto é, o novo sacerdócio inaugurado por Cristo através do serviço, da doação, do empenho pessoal numa vida de santidade. Eles precisaram algumas qualidades do seguidor do Senhor, tais como: a humildade, a sinceridade, a pobreza, a obediência, a simplicidade de vida, o contato com as pessoas, sobretudo as mais simples e pobres, a caridade. Eles também afirmaram a necessidade do sacerdote dar sua vida pelos irmãos e irmãs como Cristo fez para todos. A seguir apresentamos a visão do sacerdócio em alguns padres da Igreja.

  1. O sacerdote como dom do Senhor

Um dos primeiros padres da Igreja que falou sobre o sacerdócio foi Tertuliano, padre do século III, que viveu no Norte da África. Ele dizia que o sacerdócio é dom de Deus para o serviço da comunidade e à glória de Deus Uno e Trino. Ele valorizou o sacerdócio comum dos fiéis e os ministérios na comunidade. Nesta mesma linha da doação do sacerdote encontra-se Orígenes, padre de Alexandria, do século III. Ele teve presente o sacerdócio comum dos fiéis, proveniente do batismo. Todos aqueles que receberam a unção do sagrado crisma tornaram-se sacerdotes, como diz Pedro a toda a Igreja: “Mas vós sois uma estirpe eleita, um sacerdócio real e um povo santo” (1 Pd 2,9).

  1. A vocação e a missão do sacerdote

São Cipriano foi bispo de Cartago, Norte da África, século III. Ele afirmava que o tema sacerdote vem usado freqüentemente em referência seja aos bispos, seja aos presbíteros pelo fato que todos estão unidos ao sacerdócio de Cristo. O bispo preside a Igreja como sucessor dos apóstolos e seu herdeiro no plano espiritual e pastoral. Cipriano reconheceu todos os graus inferiores ao episcopado: os presbíteros e os diáconos, apresentando-os como colaboradores e participantes do ministério episcopal. No entanto, bispos e presbíteros tem em comum a origem divina do seu ministério e da sua consagração. O sacerdócio é um chamado do Senhor. Trata-se, pois de uma ação condescendente de Deus que influi realmente e causa o sacerdócio, pelo qual é Deus quem elege, constitui, faz e ordena os seus sacerdotes. Deus separa-os do povo, isto é dos batizados para incorporá-los à ordem ou estado sacerdotal. São Cipriano os chamou sacerdotes de Cristo, fazendo entender o influxo divino que transforma o íntimo do sacerdote eleito em servo do Senhor. A eleição do candidato veicula-se a um ato público de consenso e a um rito externo. Somente assim havia uma ordenação justa e legítima segundo a divina vontade, pois “com o povo presente vem descobertos os delitos dos maus e os méritos dos bons; assim é legítima somente a ordenação examinada com o apoio de todos (Carta 67).

São Cipriano falou a respeito das funções sacerdotais como o ofício de ensinar fundando a autoridade do ministro sobre a palavra de Cristo que enviou os seus apóstolos para batizar, pregar e governar. O seu compromisso primeiro será por isto aquele de seguir Cristo e nunca impor uma disciplina própria, mas somente aquela de Cristo. O bispo deve pregar a verdade da fé e inculcar a lei do Senhor. O bispo não somente deve ensinar, mas também apreender dos outros porque melhor ensina aquele que todo o dia cresce e progride no aprender coisas melhores que vê em seus irmãos (Carta 74). Ele falou também a função de santificar. A celebração eucarística é o ato central na qual os sacerdotes interiorizam os sentimentos de Cristo na última Ceia. Na ação do sacrifico eucarístico Cipriano vê uma profunda atuação de pastor: animar os fiéis para realizar a unidade da Igreja. Os sacerdotes possam perdoar os pecados pelo poder dado por Cristo aos apóstolos e aos seus sucessores de ligar e desligar (Unidade da Igreja, 4). Tal poder aparece, sobretudo no problema da reconciliação dos renegados (os lapsis), quando os confessores intercediam, mas a verdadeira remissão com a imposição das mãos era própria dos bispos e dos presbíteros. E por fim encontramos em São Cipriano a função de pastorear, de coordenar a comunidade. Ele tinha uma clara consciência que a sua autoridade é um serviço à comunidade. Ele é bispo para coordenar e animar o povo para o seguimento a Cristo. Quando surgiam problemas, era preciso segundo Cipriano, agir com moderação e sabedoria. Cipriano percebia que sua autoridade vem de Deus. Ele é sacerdos Dei et Christi (Carta 63), sucessor dos apóstolos que teve de Cristo o poder de governar a Igreja (Carta 75); no entanto ele reconhece também que se trata de uma autoridade vigária, ordinatione vicária, em lugar de, pois ela vem de Deus (Carta 59).

  1. O sacerdote está a serviço do Senhor, da Igreja e do mundo

 Santo Agostinho, Bispo de Hipona, séculos IV e V, dizia que o sacerdócio é visto essencialmente como uma função social onde o presbítero se consagra a Cristo e aos outros tendo presente o serviço da igreja e do mundo. Agostinho não se limitou ao único serviço sagrado do ministério (ministério do sacramento e da palavra como o chama ele mesmo), mas deu tempo pleno à pregação: “Ensinava e pregava em privado e em público, em casa e na igreja com toda a liberdade” (Possídio, Vita).

Com todo o trabalho na diocese, Agostinho unia aquele fora para o bem da igreja universal indo diversas vezes em Cartago. A sua preocupação apostólica era ditada por um profundo espírito de serviço à igreja. Ele sabia que o ser bispo comportava o preciso dever da autoridade, isto é, a responsabilidade para com as almas. “Como nós devemos pensar com grande temor e solicitude ao modo no qual podemos cumprir irrepreensivelmente o nosso dever de bispos e assim também vós deveis estar atentos por aquilo que vos é recomendado” (Sermo 340). Mas é este exercício importante da autoridade que ele subordina aquele do serviço: não tanto de mandar, mas quanto de guardar o rebanho do Senhor: “Somos cabeças e somos servos”: coordenamos, mas devemos nos alegrar por sermos servos de Cristo. O serviço do pastor é o serviço de Cristo: “O Senhor Jesus Cristo confiou ao servo as ovelhas que conquistou com o seu sangue, assegura a idoneidade do servo, prevendo sofrimentos e sangue”; somos servos de Cristo, ministros da palavra e do sacramento dele” (Sermo 1). E continuava dizendo: “Serve-se bem a Cristo, quando se serve a aqueles aos quais Cristo serviu”. “Quem está na coordenação (cabeça) do povo deve por primeiro ter a consciência que ele é o servo de muitos a exemplo de Cristo, porque Ele não desdenhou de fazer-se servo, o Senhor dos senhores” (Sermo 32). “Somos servos da igreja dele, sobretudo dos membros mais débeis, qualquer que seja o nosso lugar quais os membros do mesmo corpo”. Agostinho fundamentou sobre a Sagrada Escritura a sua concepção do sacerdócio. O texto principal é de Mt 20,26-28: “Quem dirige os irmãos deve lembrar-se de ser a eles servidor, como ensina o Senhor mesmo com preceito e com o exemplo” (De Opere monachorum, 29).

Eis em qual modo o Senhor serviu, eis em qual sentido nos mandou de ser servos. Deu a sua vida em resgate por muitos. Quem de nós é em grau de redimir alguém? Jesus nos exorta a assemelhar-se a ele e diz: Cristo por nós deu a vida: assim também nós devemos dar a vida pelos irmãos.

Ele também falava das qualidades do sacerdote como o ministério eucarístico, o da palavra. Todas as atividades exteriores tinham em Agostinho um coração e um espírito que as animava: “Nas coisas interiores encontramos a nossa alegria: das exteriores nos ocupamos pela necessidade, não pela livre escolha” (Ennarationes in Ps.139). Por isto é importante lembrar as principais virtudes ou atitudes interiores que tinham que acompanhar o ministério: a obediência à vontade de Deus A convicção de cumprir, servindo os irmãos, a vontade de Deus os faz compreender quanto é grave a responsabilidade de tal serviço. Ele a sentiu como um peso do qual deverá render contas severas a Deus. Um outro dote requerido ao bispo e aos presbíteros, é o “desinteresse”, o procurar, segundo a admoestação de Paulo, “não as coisas próprias, mas aquelas de Jesus Cristo” (Fl 2,21). Agem por próprio interesse os servidores maus que se enriqueceram sobre o rebanho do Senhor dividindo aquilo que tinham comprado. O desinteresse da parte do pastor funda-se sobre a fundamental concepção teológica da absoluta necessidade da graça. Porque também o ser pastor é graça. A terceira virtude é a humildade. No ministério de bispo, Agostinho guarda dois aspectos: aquele do cristão que tem em comum com todos os outros fiéis e aquele do bispo que o constitui cabeça. O primeiro é de consolação, o segundo o assusta: “para vós sou bispo, convosco sou cristão. Aquele é nome do ofício, este de graça; aquele é nome de perigo, este de salvação. Se, pois me é causa de maior júbilo ser resgatado que o ser para vós colocado como cabeça, seguindo a palavra do Senhor, dedicar-me-ei com máximo empenho a servir-vos para não ser ingrato a quem me resgatou com aquele preço que me foi feito vosso servo” (Sermo 140).

Cristo Jesus nos ensinou o caminho da humildade, descendo para depois subir, com o visitar aqueles que estavam embaixo e com o elevar aqueles que queriam estar unidos a Ele”.

A humildade é assinalada pelo amor. É a dileção mesma que exige o débito: “Servindo à caridade fraterna, nós ajudamos naquilo que podemos Aquele que justamente deseja de ser ajudado” (Carta 110). Pode parecer superior às forças confrontar os mais graves perigos para não abandonar o próprio lugar. Mas escreve Agostinho, “isto vem aonde arde a caridade de Deus e não predominam as paixões do mundo” (Carta 28). O serviço pastoral prestado de bom agrado não é efeito de necessidade, mas fruto da caridade.

Conclusão

Encontramos a visão dos padres da Igreja no sacerdócio como dom e missão. Eles o viveram seja como bispos, sacerdotes ou mesmo como leigos a serviço da família, da comunidade e da Igreja. Eles iluminaram a vida dos ministros da Igreja para serem fieis à Palavra de Cristo, da Igreja para que sirvam de fato a todas as pessoas, sobretudo os pobres e necessitados assim como Jesus Cristo fez por todos. Somos chamados ao amor a Deus, ao próximo como a si mesmo. Sejamos testemunhos do amor de Deus neste mundo. Rezemos por todas as vocações, sejam aqueles à vida matrimonial, comunitária, religiosa e sacerdotal. Rezemos pelos nossos pastores, diáconos, presbíteros e bispos e todo o povo de Deus viva a alegria da doação e do amor.

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