Ano Sacerdotal: Pe. Cardijn

O Pe. Joseph Cardijn, seguindo os passos do Pe. Kolping, foi também um santo sacerdote, zeloso e dedicado aos operários. Belga de nascimento, nacido aos 13 de novembro de 1882, foi ordenado padre em 1906. Seu pai trabalhava nas minas de carvão e faleceu antes de sua ordenação, vítima de doença causada pelas condições de insalubridade do trabalho de que se ocupava. Foi ao lado de seu leito de morte que o jovem Joseph Cardijn comprometeu-se a oferecer sua vida pela classe operária. Certa vez Cardijn, já envolvido no trabalho com os jovens operários, entra na sala de audiência de Pio XI e lhe segreda: “Santo Padre, eu quero salvar a classe operária”.

Pio XI se alegra de ouvir dos lábios do jovem sacerdote esta boa notícia e comenta que o procuravam por muitas razões e alegra-se porque, enfim, alguém lhe fala da classe operária, submetida pelo capitalismo selvagem a situações de vida desumanas. Todos sabemos da preocupação de Pio XI com a questão social, expressa em sua Encíclica “Quadragesimo Anno”, publicada por ocasião do quadragésimo aniversário da Encíclica de Leão XIII, a “Rerum Novarum”. Pio XI observa: “cresceu desmesuradamente o número dos proletários pobres, cujos gemidos bradam ao céu. Acresce o ingente exército dos jornaleiros relegados à ínfima condição e sem a mínima esperança de se verem jamais senhores de um pedaço de terra; se não se empregam remédios oportunos e eficazes, ficarão perpetuamente na condição de proletários.

É verdade, que a condição proletária não se deve confundir com o pauperismo; contudo basta o fato de a multidão dos proletários ser imensa, enquanto as grandes fortunas se acumulam nas mãos de poucos ricos, para provar à evidência que as riquezas, produzidas em tanta abundância neste nosso século de industrialismo, não estão bem distribuídas pelas diversas classes da sociedade”. De Pio XI o Pe. Cardijn recebe, pois, total apoio para seu trabalho já iniciado há algum tempo. Pe. Cardijn, tocado pelas condições de vida indignas dos jovens trabalhadores e impressionado pelo seu afastamento da fé e da Igreja, começou a organizar grupos de jovens trabalhadores. À semelhança do Pe. Kolping, Cardijn crê profundamente nestes jovens, não obstante a exploração a que estão submetidos: “eles são capazes de protagonizar sua própria libertação” sem se afastarem do próprio ambiente operário e juvenil. Eles mesmos devem se converter em apóstolos de seus companheiros.

Assim nasce a JOC, Juventude Operária Católica. A pedagogia da JOC, no entendimento de Cardijn, se assenta em três convicções ou “verdades fundamentais”: a) a verdade da experiência: a própria vida dos jovens trabalhadores, as condições de vida indignas em que vivem; b) a verdade da fé: o destino eterno e temporal de todos e de cada um dos jovens trabalhadores como filhos de Deus; destino ou dignidade que são negados pelas condições concretas em que vivem; c) a verdade pastoral ou do método: a necessidade de uma organização cristã e de uma ação conduzida pelos próprios jovens trabalhadores para tornar realidade sua dignidade de filhos de Deus. Estava assim lançado o método “Ver, Julgar e Agir”que da JOC passou a outras organizações da Ação Católica e se tornou um valioso instrumento de reflexão e de formação utilizado também em documentos oficiais do magistério da Igreja. Esse método é assumido pelo Diretório de Catequese da Igreja no Brasil com o nome de “Interação Fé e Vida”.

A JOC cresce e se espalha pelos cinco continentes. Com a presença do Pe. Joseph Cardijn realiza-se em 1957 o encontro internacional em Roma e a JOC passa a ter uma coordenação internacional, a JOCI. No Brasil a JOC desempenhou um papel fundamental na formação de verdadeiros discípulos de Jesus, comprometidos com a missão da Igreja e plenamente engajados na luta operária, sempre iluminados pela mensagem do evangelho. Por razões históricas que não cabem no espaço desse artigo, a JOC passou por forte crise.

Nasce em 1986, por iniciativa de vários movimentos nacionais da JOC, a CIJOC (Coordenação Internacional das JOC), com o objetivo de retomar as convicções de origem que lhe deram nascimento. Assim: a) restabelecer entre os objetivos fundamentais da JOC o testemunho e o anúncio de Jesus Cristo, a partir de uma clara pertença eclesial; b) estabelecer entre os diversos movimentos nacionais uma coordenação, sem a intenção de ser um organismo centralizado; c) suscitar o dinamismo educativo dos jovens trabalhadores em uma perspectiva evangelizadora; d) formar os próprios militantes para o compromisso sindical e social sem pretende ser uma alternativa ao sindicato. Pe. Cardijn recebeu da Igreja a honra do Cardinalato, tendo falecido na Bélgica em 1967. Está em curso seu processo de Beatificação. Seu exemplo, sua ação e sua reflexão marcaram a história da Igreja no séc.XX. A ele, nesse Ano Sacerdotal nossa homenagem, e nosso pedido de intercessão.

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

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