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A grande tentação

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo

Falar em “tentação” e ”pecado”, parece discurso fora de época; na linguagem corrente, esses conceitos acabam sendo referidos a coisas algo inconseqüentes e infantis, despertando mais sorrisinhos do que preocupação e reflexão séria: tentação de comer um doce, de comprar isso ou aquilo, de ir ao estádio... Cometer um pecadinho, um pecadão!  Nada que se leve muito sério.

Acontece que só faz sentido falar de tentação e de pecado quando se tem uma visão religiosa do mundo e da vida, ou seja, quando se leva Deus a sério. O papa Bento XVI recordou isso, falando ao povo na Praça de São Pedro no domingo passado: "Quando se elimina Deus do horizonte do mundo, não se pode falar de pecado. Como o desaparecimento do sol faz desaparecerem as sombras - a sombra só aparece quando há sol -, assim, o eclipse de Deus leva necessariamente ao eclipse do pecado".

A Quaresma nos convida a refletir sobre tentação e pecado a partir da nossa fé e das nossas relações com Deus, com o próximo e com o mundo. No primeiro domingo da Quaresma lemos a passagem bíblica que fala da tentação e do pecado de Adão e Eva no paraíso (cf Gn 2,7-9; 3,1-7). Nada de maçã; o tentador promete coisa bem diferente e muito séria! Primeiro, leva a desconfiar de Deus e a pensar que Ele trapaceia com o homem (“Deus não quer que vocês sejam como ele...”); a seguir, mexe com a soberba do homem: “sereis iguais a Deus!” Nossos primeiros pais caíram na tentação, foram enganados e perceberam logo que, ao invés de deuses, eram frágeis criaturas. Sua consciência os acusava e procuraram esconder-se de Deus.

O Evangelho desse mesmo domingo nos traz as tentações de Jesus no deserto (cf. Mt 4,1-11). São três, que resumem a grande tentação do homem: deixar Deus fora de sua vida e de sua história e colocar-se no lugar de Deus. Foi também a tentação de Adão e Eva no paraíso. Só que Jesus resistiu ao tentador, não se deixou levar pelos seus enganos e venceu toda tentação com decidida fidelidade a Deus.

As propostas que o tentador faz a Jesus são muito sérias: a 1ª. é a tentação do pão, que significa colocar todo o sentido da vida na satisfação das necessidades corporais e materiais, sem buscar a Deus. Jesus alerta: “não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. A 2ª. tentação consiste no orgulho diante de Deus,  exigindo dele provas, para satisfazer os caprichos humanos; ou ainda, em colocar Deus “contra a parede”, pretendendo cobrar contas dele. Jesus recorda: “não tentarás o Senhor teu Deus!”. A 3ª. tentação é ainda mais grave e consiste em trocar Deus pelo diabo: “tudo isso te darei se, prostrado diante de mim, me adorares”. Ainda hoje existe a tentação de fazer pacto com o diabo e de se sujeitar aos mandos do espírito do mal para conseguir riqueza, poder, glória e vaidades. Jesus repele o tentador: “retira-te de mim, satanás. Só a Deus deve ser prestado culto”.

Não é por acaso que as tentações de Jesus são situadas no deserto: Jesus está jejuando, rezando e vivendo em profunda comunhão com Deus, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo. Só se vence a tentação com a força de Deus e com a vontade e os desejos bem educados pela Palavra de Deus. Quem vive longe de Deus não consegue resistir ao tentador.

As tentações de Jesus, como todas as nossas, podem ser resumidas numa: optar por Deus, ou deixar Deus de lado, colocando-nos em seu lugar. De fato, a tentação sempre quer levar a desobedecer a Deus, a não aderir à sua vontade e a seus mandamentos; leva a não reconhecer o seu desígnio e a não corresponder ao seu amor. Em lugar disso, o tentador quer induzir o homem a resolver as coisas por sua conta, a se colocar no lugar de Deus: “sereis como deuses!”. Cair na tentação é cometer o pecado, que sempre representa um ato de auto-suficiência e de soberba da parte do homem. O pecado se expressa em muitas ações contrárias a Deus e aos seus mandamentos.

O fruto do pecado é a confusão introduzida no mundo, na vida pessoal, comunitária e coletiva e nas relações com a natureza. São Paulo ensina que o pecado fez aparecer no mundo a morte; por isso, também a natureza “geme, como em dores de parto, esperando a manifestação da glória dos filhos de Deus” (cf Rm8,22). A Campanha da Fraternidade deste ano recorda as dores da natureza e do nosso planeta Terra, por causa do pecado do homem. O anúncio bom da Quaresma é que o pecado e a morte podem ser superados, na medida em que não nos deixamos enganar pelo tentador, superando o pecado e unindo-nos mais profundamente a Cristo.

Publicado em O SÃO PAULO

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