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Amai-vos uns aos outros

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo - SP

No Evangelho de São João encontramos uma longa passagem, em que Jesus se despede de seus apóstolos, fazendo-lhes suas últimas recomendações antes de ser preso, julgado e condenado à morte na cruz. É uma espécie de testamento espiritual deixado aos discípulos, aos quais ele também chama amigos; suas palavras e gestos, carregados de profunda emoção e simbolismo, marcaram para sempre a vida dos discípulos e da Igreja, que nascia desse convívio de Jesus com eles. Para os cristãos de todos os tempos, essas palavras e gestos de Jesus são sagrados.

Jesus lavou os pés dos apóstolos e lhes ordenou que fizessem a mesma coisa, colocando-se ao serviço do próximo com toda humildade e dedicação: “dei-vos o exemplo para que façais assim como eu vos fiz” (cf João 13,15). Não se trata apenas de um exemplo edificante, mas do sinal de participação no amor e amizade de Jesus. São  Pedro relutou para deixar que o Mestre lhe lavasse os pés, mas Jesus lhe explicou: “se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo” (João, 13,6-10). Quem quiser ter parte no amor de Jesus Cristo deve amar o próximo, colocando-se ao seu serviço, como Jesus fez.

Logo em seguida, a narração continua com o mandamento novo e Jesus ordena: “amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim deveis amar-vos uns aos outros” (João 13,34-35). A novidade desse mandamento consiste na medida do amor: “Como eu vos amei”. De fato, as Escrituras Sagradas já registravam uma ordem semelhante de Deus: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Levítico 19,18). Jesus coloca um referencial novo - “como eu vos amei” -, inseparável da primeira parte da recomendação - “amai-vos uns aos outros”.

No mesmo relato de despedida, na comparação da videira, Jesus explica que a capacidade de amar “como” ele amou, vem da união estreita do discípulo com o Mestre. Como o ramo não é capaz de produzir fruto sem estar unido ao tronco da videira, assim o discípulo: Sem uma vinculação estreita com Jesus, não saberá amar como ele amou. E o amor de Jesus vincula diretamente ao próprio amor de Deus: amar a Jesus Cristo, é amar a Deus e ser por Deus amado (cf João 15). Neste mesmo contexto, Jesus recomenda novamente: “Este é o meu mandamento: Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei” (João 15,12). Portanto, “como eu vos amei”, tem sua origem no próprio amor de Deus, aprendido de Cristo e tornado possível com a ajuda dele. O papa Bento XVI reflete sobre os vários graus do amor humano na sua primeira encíclica – Deus caritas est (Deus é amor); na nomenclatura cristã, o amor ´com que Deus nos ama e com o qual devemos retribuir ao amor de Deus chama-se “agape”.

Jesus não excluiu a ninguém do seu amor. Amou pessoas concretas, defendendo e restituindo a dignidade aos humilhados; amou os doentes, os pobres, as crianças, os homens, as mulheres. Em cada pessoa viu e amou um filho de Deus. Acolheu e perdoou os pecadores, mesmo não aprovando todos os seus comportamentos e atitudes, recomendando-lhes que não voltassem a pecar. Ensinou a amar também os inimigos e, ainda no momento extremo de seu suplício na cruz, ele próprio perdoou aos algozes: “Pai, perdoai-lhes; não sabem o que fazem”. Amou com amor puro, genuíno, transparente, sem apossar-se das pessoas como se fossem objetos de desejo; amou como Deus ama. Sim, amadas por Jesus, as pessoas sentiam-se amadas por Deus, dignificadas, profundamente valorizadas, restituídas à vida, felizes.

Logo após o “mandamento novo”, Jesus colocou mais um parâmetro para o amor que praticou e ensinou a viver: “não há maior amor que dar a vida pelos amigos”. Ele próprio o fez: “Tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13,1). Seu “fim” foram prisão, tortura e injusta condenação à morte na cruz. Suportou tudo por aqueles que amava. E o fez também por toda a humanidade, para que cada ser humano pudesse sentir-se valorizado e amado por Deus: “Tanto Deus amou o mundo, que lhe enviou seu Filho único para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João, 3,16).

“Amai-vos uns aos outros”, é apenas uma parte do mandamento novo de Jesus; sem a outra parte – “como eu vos amei” -, as belas palavras de Jesus ficam genéricas, ambíguas, expostas à instrumentalização subjetiva e ao deboche desrespeitoso. De fato, várias supostas maneiras de amar não são recomendadas por Jesus: amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, contrário à natureza... Não são expressões de autêntico amor e, no mínimo, não podem pretender-se legitimadas pela recomendação de Jesus – “amai-vos uns aos outros”.

Mas é certo que fazem parte do amor vivido e ensinado por Cristo as qualidades exigentes que lhe atribui São Paulo no belo poema sobre o amor, na sua primeira Carta aos Coríntios (cf 13,4-8): “O amor é paciente, é benfazejo, não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza nem leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica feliz com a verdade. O amor desculpa tudo, tudo crê, tudo espera, suporta tudo. O amor jamais passará”.

Semelhante amor, está abrigado inteiramente nas palavras de Cristo: “amai-vos uns aos outros... como eu vos amei”. Instrumentalizar essas palavras sagradas para justificar o contrário do que elas significam é profundamente desrespeitoso e ofensivo, em relação àquilo que os cristãos têm como muito sagrado e verdadeiro.

Artigo publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, Ed. de 11.06.2011

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