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Trabalho Escravo ou Escravos do Trabalho?

Dom Francisco Biasin
Bispo da Diocese de Barra do Piraí Volta Redonda (RJ)

No dia 28 de janeiro celebra-se no Brasil o dia nacional de combate ao trabalho escravo. Não há dúvidas que nestas últimas décadas no Brasil houve avanços significativos na defesa dos direitos humanos com a elaboração e a promulgação de estatutos que defendem as categorias de pessoas mais vulneráveis e indefesas. Baste pensar no Estatuto da criança e do adolescente, da pessoa idosa, na lei Maria da Penha, na lei contra a discriminação racial etc. Isso honra o nosso país e cria uma cultura sempre mais sensível na defesa dos direitos da pessoa humana.

Pouco se divulga uma realidade triste, presente em quase todos os estados da União e que atinge cerca de 25.000 pessoas submetidas às condições análogas ao trabalho escravo. É a escravidão “moderna” onde não há tráfico nem comercialização de pessoas, como acontecia na época colonial, mas onde a privação da liberdade continua sendo a principal característica dessa prática.

O maior número de seres humanos submetidos ao trabalho escravo encontra-se no campo e está ligado ao latifúndio ou à extração de minério, mas existe também em regiões de grande desenvolvimento turístico onde os empregados (homens e mulheres) não tem nenhum direito, são explorados de todas as formas e carecem de apoio, pois estão a serviço e à mercê de pessoas da alta sociedade: artistas, juízes, promotores, grandes empresários que intimidam e escravizam.

Na nossa região sul-fluminense assistimos a esta prática, seja no litoral com seus condomínios fechados, seja na serra onde a exploração imobiliária ligada ao turismo vitima empregadas domésticas e caseiros, sugando seu trabalho mal pago e tirando-lhes os direitos fundamentais que dignificam a pessoa humana.

Na nossa diocese a região de Penedo e Visconde de Mauá é um triste exemplo de como a população originária é explorada e escravizada!

E tudo isso em nome do progresso e do desenvolvimento! Parece que na nossa serra chegou o Eldorado, se encontrou o país das maravilhas! Porque assim todo mundo ganha mais, tem trabalho para todos! Mas, a custo de que?

Da descaracterização da região com a invasão agressiva de novas, grandes e numerosas construções, da perda ou diminuição dos valores familiares, comunitários e religiosos por falta de tempo para cultivá-los, exploração no trabalho pois quem manda é a necessidade ou o capricho do turista que não se importa com a saúde e a situação de quem está a seu serviço. Este é o preço que se paga!

Parece que ganhar dinheiro tornou-se a finalidade da vida e que a lei da vida seja ditada pelo deus mamona! Desta forma o trabalho humano perde o seu sentido de ser “humano” para se tornar “mercadoria”, objeto de lucro e exploração!
Se é difícil combater o trabalho escravo pelos interesses que estão em jogo e pelo status das pessoas que dele se beneficiam, mais difícil é derrotar a cultura do ter que impulsiona muitas pessoas a serem escravas do trabalho só para acumular, para ter cada vez mais ou para competir motivadas pela vontade de manter e aparentar um estilo de vida de alto nível econômico a qualquer preço!

Deparamo-nos aqui com uma das raízes dos males que desde sempre estragou a convivência entre os seres humanos e que João bem descreve na sua primeira carta: “Tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a ostentação da riqueza – não vem do Pai, mas do mundo”. (1 Jo 2,16). O próprio Jesus chama de insensato o homem que acumula para si e não se enriquece diante de Deus (cfr. Lc 12, 13-21) e condena “o grande abismo” entre ricos e pobres construído por quem se locupleta insensível ao clamor dos últimos. (cfr Lc 16, 19-31).

Combater o trabalho escravo e libertar o coração humano da escravidão da ganância exige uma conversão que, a partir da dignidade e da consciência de cada ser humano, atinja a organização da sociedade e suas estruturas econômicas e políticas, para que sejamos livres da liberdade que Jesus nos conquistou!

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