As Dores de Maria

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

A devoção a Nossa Senhora das Dores, se origina a partir do testemunho dos Evangelho, escutamos palavras proféticas da boca do velho Simeão: “E a ti, uma espada traspassará tua alma!” (cf. Lc 2,35). O Evangelho de São João atesta que “perto da Cruz de Cristo estava Maria sua Mãe, (cf. Jo 19,25-27). Estas e outras passagens do Evangelho fala da presença da Virgem Maria na vida de seu Filho em todos os momentos de dor e solidão, quando o seu filho percorria o doloroso sofrimento, sua morte e Paião ao assumir a vontade do Pai, a Mãe estava com ele. Esta devoção tomou especial consistência a partir do final do século XI e teve um precursor percorrido muito antes de se tornar memoria oficial no calendário litúrgico do Ocidente.

 A devoção à Nossa Senhora das Dores é muito difundida, especialmente nos países do Mediterrâneo. Foi o Papa Pio VII em 1814 que o introduziu no calendário litúrgico romano, fixando-o no dia 15 de setembro. A memória de Nossa Senhora das Dores na liturgia católica convida os fiéis a meditar sobre o momento decisivo na história da salvação e a venerar a Mãe associada à Paixão do Filho e próxima a ele ressuscitado na cruz.

 O testemunho desta devoção é o muito popular no “Stabat Mater”, que em latim significa estava a mãe, isto é a virgem estava ao lado do filho sempre com ele no momento de sua Morte e Paixão desde o Calvário. Desta devoção originou a festa das “Sete Dores de Maria”. No século XV, as primeiras celebrações litúrgicas tiveram lugar na “compaixão de Maria” ao pé da cruz, durante o momento da paixão de seu filho Jesus Cristo.

Em meados do século XIII, no ano 1233, nasce a Ordem dos Frades “Servos de Maria”, os Servitas fundada em Florença, pelos Sete Fundadores e foram inspirados na Virgem das Dores.  Para a ordem, a devoção à Mãe de Deus qualificava a razão de ser e de existir de seus frades no mundo, por séculos eles propagaram a intensa veneração e a propagação do culto de Nossa Senhora das Dores.

Em 9 de Junho, 1668, a Sagrada Congregação dos Ritos permitiu esta Ordem de poder celebrar a Missa votiva das Sete Dores da Virgem, fazendo menção, no decreto a veste ou o hábito dos frades Servitas que sendo preto fazia memória de Maria no caminho do Calvário, das dores que ela sustentou na paixão de seu Filho.

Finalmente São Pio X (1903-1914), fixa a data-limite de 15 de setembro, logo após a celebração da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), sem memória das “Sete Dores”, mais apropriadamente como a “Beata Virgem Maria das Dores “.

A memória das Dores, (Mater Dolorosa) que em latim significa a Mãe das Dores, revive o momento decisivo na história da salvação e para venerar a Mãe associada a paixão de seu filho e mais perto dele levantado na Cruz. Sua maternidade assume o Calvário dimensões universais apresentando-se como a nova Eva, porque, como a desobediência da primeira mulher levou à sua morte, por isso a sua obediência admirável conduz à vida.

O mundo tem grande necessidade de compaixão e a festa de hoje nos dá uma lição de verdadeira e profunda compaixão da Mãe pelo seu filho amado. Maria sofre por Jesus, mas também sofre com ele e a paixão de Cristo é participação em toda a dor do homem.

A liturgia nos faz ler na carta aos Hebreus os sentimentos do Senhor em sua paixão: “Nos dias de sua vida terrena, ele oferecia orações e súplicas com gritos e lágrimas para quem pudesse libertá-lo da morte”. A paixão de Jesus ficou impressa no coração da Mãe, esses fortes gritos e lágrimas a fizeram sofrer. O desejo de que ele fosse salvo da morte tinha que ser mais forte nela do que em Jesus, porque uma Mãe quer mais do que seu filho que ele está seguro. Mas, ao mesmo tempo, Maria estava unida à piedade de Jesus, submetida à vontade do Pai.

É por isso que a compaixão de Maria é verdadeira: porque ela realmente tomou sobre si a dor do Filho e aceitou com ele a vontade do Pai, numa obediência que dá a verdadeira vitória sobre o sofrimento.

Nossa compaixão é frequentemente superficial, não cheia de fé como a de Maria. Nós facilmente vemos a vontade de Deus no sofrimento dos outros, e isso é certo, mas nós realmente não sofremos com aqueles que sofrem.

Peçamos a Nossa Senhora que una em nós estes dois sentimentos que formam a verdadeira compaixão: o desejo de que quem sofre traga a vitória sobre o seu sofrimento e seja liberto e, ao mesmo tempo, uma profunda submissão à vontade de Deus, que é sempre a vontade do amor que transforma a vida.

Da Mãe dolorosa emerge a missão do cristão que, debaixo da Cruz, encontra sua identidade profética e missionária, e sua realidade de encontro com Cristo em verdade autenticada.

A dor já não é uma realidade em si, mas através de Maria é profundida como o perfume da missão de toda a Igreja, através do ato de oferecer e confiar que Jesus faz a Maria para João e João para Maria, e para sua Igreja de todos os tempos.

Ir à dor com amor não é apenas o estilo de Maria como um dom recebido por ela sob a Cruz do Filho, mas também se torna um novo estilo para nós, não só para o cristão, mas para todo homem de boa vontade, para tornar realidade dor não é uma situação em sua própria direita, que se fecha na morte, mas um sinal de que abre a dimensão misteriosa da vida, e então o amor derramado por Jesus na cruz, e continuou nos sofrimentos de nosso relacionamento investida com Cristo e transformada em luz amorosa, luminosa e triunfante.

O sofrimento, fez parte de uma dor maior e mais eficaz, a Senhora das Dores esteve em comunhão com seu Filho em todos os momentos decisivos de sua missão redentora. Também hoje caros irmãos e irmãs a presença da Mãe nos lenta na caminhada, onde quer que nos encontremos, no julgamento, na Cruz e sofrimento, onde a dor nos atormenta, também nos transforma na imagem de Cristo que, ainda hoje, compartilha nosso morrer e viver. Peçamos a Mãe das Dores que nos ajude nas horas amargas da caminhada e nos mostre sempre caminho do seu filho Jesus Cristo para seguirmos mais de perto como verdadeiros discípulos e missionários.

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