As normas da casa

Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre

 

A economia é a ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem estar da coletividade. Ela está a serviço do ser humano, de modo que contribua para o princípio da destinação universal dos bens.

“O bem estar econômico de um País não se mede exclusivamente pela quantidade de bens produzidos, mas também levando em conta o modo como são produzidos e o grau de equidade na distribuição das rendas, que a todos deveria consentir ter à disposição o que é necessário para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da própria pessoa. Uma distribuição equitativa da renda deve ser buscada com base em critérios não só de justiça comutativa, mas também de justiça social, ou seja, considerando, além do valor objetivo das prestações de trabalho, a dignidade humana dos sujeitos que as realizam. Um bem estar econômico autêntico se persegue também através de adequadas políticas sociais de redistribuição da renda que, tendo em conta as condições gerais, considerem oportunamente os méritos e as necessidades de cada cidadão” (CDSI, 303).

Tendo presente a tarefa característica da economia e o significado do bem estar econômico de uma nação, constata-se que os princípios da ciência econômica e a sua aplicação sócio-política vêm desconsiderando a dignidade da vida humana e a importância da vida comunitária.

A economia não é uma ciência autônoma. Seu modo de proceder não pode ser estranho ou permanecer impermeável, a uma ética fundada na liberdade, na verdade, na justiça e na solidariedade.

Essa ciência, como também sua aplicação, não pode pretender sem mais seguir o princípio que afirma que a demanda impulsiona a oferta. Urge considerar o princípio do bem comum! A economia, em diálogo com a atividade política, alcança sua autêntica identidade se decididamente se empenha em cuidar, conservar e promover a vida nas suas diversas manifestações e, de modo particular, a vida humana.

A ética ilumina e orienta a economia e sua aplicabilidade. Por isso, há necessidade de empenhar os maiores esforços para construir uma regulação do mercado. Somente assim será possível promover o bem comum, como caminho irrenunciável para uma justa distribuição das riquezas e a eliminação das desigualdades tão evidentes aos olhos de todos.

O mercado não pode compreender o ser humano como simples consumidor de bens. O ser humano, por sua vez, não pode se deixar orientar por uma visão individualista. Não se pode esquecer a índole relacional e racional da pessoa humana. Desse modo, pode-se perceber que ela busca um ganho e um bem-estar que levem em consideração sua integralidade, que não podem ser reduzíveis a uma mera lógica de consumo.

Diante das desigualdades econômicas que marcam a vida das nações e dos povos, diante da constatação de que a miséria continua crescendo no Brasil – mas não só! – é urgente reconhecer a necessidade de estratégias econômicas, eticamente válidas, que busquem a qualidade global da vida.

Nenhum ganho é realmente legítimo quando diminui o horizonte da promoção integral da pessoa humana, da destinação universal dos bens e da opção preferencial pelos pobres (cf. Oeconomicae pecuniariae quaestiones. Documento do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral e Congregação para a Doutrina da Fé).

 

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