Assembleia Geral da CNBB 2016

Dom Pedro Luiz Stringhini
Bispo de Mogi das Cruzes (SP)

 

 1. O CATOLICISMO NO BRASIL – MUDANÇA DE RELIGIÃO NO BRASIL

O tema foi apresentado pela Dra. Sílvia Fernandes, do CERIS. Fez menção ao livro das Vozes – Religiões em Movimento: o Censo de 2010. Há um cenário de mudanças no contexto sócio religioso brasileiro e uma diminuição do percentual de católicos no Brasil. Os católicos somam 64% da população brasileira e o que se constata é que há um pluralismo cristão; há evangélicos não determinados e evangélicos não vinculados.

Os ‘sem religião’ somam 8,9% em 2010. E desses, só 0,5% declaram que não acreditam em Deus, ou seja, muitas vezes quando dizem que não têm religião estão dizendo que não frequentam igreja. A mobilidade (mudança de igreja) ocorre mais entre a idade de 20 a 50 anos.

Resumindo os dados: em 1980, os católicos somam 89%; em 1991, 83,3%; em 2000, 73,9% e, em 2010, 64,5%.

Há uma interpretação a partir do indivíduo: desinstitucionalização, experimentação, reconfiguração da pertença (tradição e emoção); e uma a partir da instituição: foco pastoral e eficácia, missão e método, periferias, etc…

2. CRISTÃOS LEIGOS E LEIGAS NA IGREJA E NA SOCIEDADE

Este foi o tema central da Assembleia. E o lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo” (Mt 5,13-14). Sobre o assunto, a CNBB já elaborou os documentos de estudos 107 e 107 A. Os bispos se dirigem aos cristãos leigos e leigas “agradecidos pelo testemunho de sua fé, pelo amor e dedicação à Igreja e pelo entusiasmo com que se doam ao povo e às comunidades, até ao sacrifício de si, de suas famílias e de suas atividades profissionais” (n. 1). O documento vem marcado pela ideia de que “cada cristão leigo é chamado a ser um sujeito eclesial para atuar na igreja e no mundo” (n. 1).

Por vocação, os leigos são “corresponsáveis pela nova evangelização” (n. 2). A reflexão segue inspirada pelas “conclusões do Concílio Ecumênico Vaticano II, a atualidade da Conferência de Aparecida e a eclesiologia missionária e renovadora do Papa Francisco” (n. 2). Também “a realidade eclesial, pastoral e social dos tempos atuais torna-se um forte apelo” à reflexão sobre o tema do laicato (n. 3).

Citando a Lumen Gentium (n. 31), afirma-se que “a vocação própria dos leigos é administrar e ordenar as coisas temporais, em busca do Reino de Deus. São chamados por Deus a serem fermento de santificação no seio do mundo” (n. 5). São interpelados a agirem no “vasto e complicado mundo da política, da realidade social, da economia, da cultura, das ciências e das artes” (n.6, citando EN n.70).

Participar na ação pastoral da Igreja nasce do Batismo e da Crisma (cf. EG, n. 102) e tem a ver com a identidade, vocação, espiritualidade e missão dos leigos na Igreja e no mundo. Ou seja, há que se responder: Quem é o leigo? A que é chamado e quem é que chama? O que lhe dá sentido? O que realiza?

O documento segue o método ver-julgar-agir, isto é, ver “os rostos do laicato”, julgar “em perspectiva eclesiológica, considerando a diversidade de carismas e ministérios na Igreja” e agir, tratando da “ação transformadora dos cristãos leigos na Igreja e no mundo” (n. 12).

3. PENSANDO O BRASIL: CRISES E SUPERAÇÕES

Esta reflexão corresponde à terceira edição do que já foi publicado na coleção Pensando o Brasil – 2016. A análise delimita aborda quatro aspectos: cultural, econômico, social, político. E os aborda em três partes: percepções da realidade (ver), reflexões à luz da doutrina social da Igreja (julgar) e indicações para superar as crises.

Na introdução, afirma que a Constituição de 1988 reconhece Direitos Sociais em vista dos quais há que se superar “interesses particulares no campo econômico”. Menciona também a existência de medidas legislativas “de caráter restritivo às franquias democráticas”. O país deveria passar da crise política à reforma política.

4. DECLARAÇÃO SOBRE O MOMENTO POLÍTICO NACIONAL

Dessa declaração depreendem-se algumas necessidades: a de se combater a corrupção, que é intrínseca e historicamente solidificada e entranhada no país; a necessidade de se preservar as instituições (executivo, legislativo, judiciário, ministério público) e o estado democrático de direito, conquistado a duras penas; a necessidade de se preservar as conquistas e avanços sociais, cujas políticas públicas, nas últimas décadas, retiraram quarenta milhões de brasileiros da extrema pobreza; a necessidade de uma ampla e profunda reforma política, que modifique a estrutura viciada da nossa democracia, a começar pelo sistema eleitoral. A essa reforma deveriam seguir outras, como a tributária, que penaliza os pobres e privilegia os mais ricos.

5. MENSAGEM PARA AS ELEIÇÕES 2016

A mensagem convoca os católicos à participação cidadã, para que se possa sonhar “com um país próspero, democrático, sem corrupção, socialmente igualitário, economicamente justo, ecologicamente sustentável, sem violência nem discriminação, sem mentiras e com oportunidades iguais para todos”.

As eleições municipais, em que se elegem prefeitos e vereadores despertam interesse nos eleitores, visto serem os candidatos mais conhecidos, daí ser o pleito propícia ocasião para um sadio exercício cívico de participação. A conduta ética é evocada como indispensável requisito a ser exigido dos que se apresentam para serem representantes do povo. “A Lei da Ficha Limpa há de ser, neste caso, o instrumento iluminador do eleitor para barrar candidatos de ficha suja”.

Requer-se dos candidatos, especialmente se se apresentar como católico, compromisso com a defesa “da vida, com a ética, com a transparência, com o fim da corrupção”. É salutar também “a renovação de candidaturas pondo fim ao carreirismo político”. Enfim, sejam “as eleições municipais ocasião de fortalecimento da democracia”.

6. AMORIS LAETITIA – A ALEGRIA DO AMOR

 A Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Francisco denomina-se Amoris Laetitia, com o subtítulo Sobre o Amor na Família. Foi editada pelas Edições CNBB, na coleção Documentos Pontifícios 24 (2016). É dirigida aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos esposos cristãos e a todos os fieis leigos. Possui nove capítulos, que, em resumo trata dos temas: a Palavra de Deus que ilumina, a realidade e os desafios das famílias, a vocação família (a partir de Jesus), o amor no matrimônio (a partir de 1Cor 13), o amor que se torna fecundo (nos membros da família), algumas perspectivas pastorais, a educação dos filhos, a fragilidade (situações “irregulares”), espiritualidade conjugal e familiar. Destacam-se alguns enfoques da exortação papal:

1.  Mais que o critério jurídico, considera-se a pessoa; isto é, mais que a moral dos princípios (normas gerais), privilegia a moral da situação, com enfoque na misericórdia. Além do que, o Papa dá ênfase à dimensão positiva, da alegria, da beleza da família, que não deve ser vista como problema mas como oportunidade;

2. O Papa fala de situações de fragilidade mais que situações irregulares ou situações de pecado, ou seja, leva em consideração aspectos psicológicos, os sentimentos;

3. Aposta-se no trabalho preventivo, educativo (educação para o amor, o sentido da vida e da sexualidade) e na formação das consciências.

4.  No sentido pastoral e evangelizador, há que se promover o acompanhamento aos jovens, a preparação dos noivos para o matrimônio, a pastoral familiar para os casados;

5. Necessidade dos pastores a dedicarem-se ao acompanhamento atencioso às pessoas, casais, famílias, que passam por problemas. Cuidar dos feridos (hospital de campanha) e dos sadios para que não se firam;

Muito importante é o que o Papa chama de recurso à gradualidade quando se trata de abordar as situações de fragilidade, isto é, não se deve tomar como ponto de partida o ideal (as exigências objetivas da lei), mas a situação real de tantas pessoas que podem estar no início de um caminho de superação de dificuldades para depois se dar passos e um dia atingir a situação ideal.

7.  RETIRO ESPIRITUAL – SOBRE A MISERICÓRDIA

O cardeal Gianfranco Ravasi apresentou quatro meditações: Três ícones da Misericórdia, O caminho da misericórdia, A casa da misericórdia, O ventre da misericórdia. Os três ícones ideais são: de Deus, do seu Cristo e do fiel.

O ponto de partida é a fé bíblica de que nosso Deus é um Deus misericordioso. E que a misericórdia não anula a justiça; antes, a aperfeiçoa. E a justiça com misericórdia encontra seu ponto de equilíbrio. E que “a onipotência de Deus não é princípio prevaricação, mas de misericórdia. Exatamente porque tudo pode, Deus tem compaixão de todos”. Reflete sobre textos emblemáticos referentes ao que foi afirmado: Ex 34,6-7, o livro da Sabedoria (9,1; 12,18-19).

Paulo afirma que “Deus, que é rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo. É por graça que fostes salvos” (Ef 2,4-5).

Por fim, teceu considerações sobre o que se espera da Igreja: 1. uma Igreja submetida e nutrida pela Palavra de Deus; 2. uma Igreja que tenha como centro a Eucaristia; 3. uma Igreja da misericórdia, da caridade, da justiça; 4. uma Igreja que fala mais pelo testemunho operoso que pelos documentos; 5. uma Igreja consciente da necessidade da distinção entre Fé e Política (dai a César o que é de César …) e ao mesmo tempo marca presença na Sociedade; 6. uma Igreja que não teme a cultura e as culturas (diálogo entre fé e ciência); 7. uma Igreja do Espírito Santo e do discernimento, atenta aos sinais dos tempos, menos engessada, mais livre e mais festiva.

 

 

 

 

 

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