Atualidade da Bíblia

Este domingo é o Dia da Bíblia. E’ uma iniciativa para ressaltar a importância da Sagrada Escritura.  Neste ano, esta celebração se coloca às vésperas de outro evento que reforça a atenção que a Bíblia continua merecendo. No próximo mês de outubro vai se realizar um sínodo, cujo tema enfoca a importância da Bíblia na vida e na missão da Igreja.

O destaque que tradicionalmente a Igreja dá para a Bíblia no mês de setembro se deve à memória de São Jerônimo, cuja festa é celebrada no dia 30 de setembro. Foi o santo que teve o grande mérito de traduzir a Bíblia para a linguagem popular do seu tempo, o latim daquela época, aí pelos séculos quarto e quinta de nossa era. O povo já não falava o grego corrente dos primeiros tempos dos cristãos, e se tornava necessário colocar os textos sagrados ao seu alcance, através da tradução para a linguagem popular.

Isto revela uma tarefa constante que se requer em todos os tempos. A linguagem humana não é estática, é dinâmica, vai mudando, e se configurando em nossos sistemas simbólicos de comunicação, que são as diferentes línguas, cujas formas nunca estacionam. Daí o desafio de atualizar as formas exteriores da comunicação para transmitir uma mensagem que foi configurada em outro sistema simbólico.

A abordagem que este próximo sínodo pretende fazer da Bíblia terá uma referência bem concreta e histórica: retomar a reflexão em torno da Bíblia, feita recentemente pelo Concílio Vaticano Segundo. Um dos seus dezesseis documentos foi dedicado especialmente à Bíblia. Foi o documento conhecido como “Dei Verbum”,  “A Palavra de Deus”, que teve uma repercussão toda especial no contexto do Concílio.

Foi ao iniciar o estudo deste documento que o Papa João 23 precisou intervir no Concílio, para deixar bem claro que a Igreja Católica queria superar o espírito polêmico que tinha marcado as discussões dos cristãos em torno da Bíblia, sobretudo a partir da Reforma Protestante. Com a intervenção de João 23, mandando retirar o esquema ainda eivado de preconceitos, e pedindo para elaborar outro texto que assinalasse com clareza a intenção de buscar um amplo entendimento dos cristãos em torno deste tesouro comum que é a Bíblia, firmou-se um novo clima para a abordagem do significado religioso da Bíblia. Muitos historiadores colocam esta intervenção de João 23 como o dia que marcou o fim da era da “contra reforma” na Igreja Católica.

A abordagem da Bíblia comporta enfoques muitos diversos. No documento do Concílio se procurou situar a Bíblia no contexto mais amplo de um fato maior, dentro do qual a Escritura toma o seu sentido e recebe o seu alcance verdadeiro. Deus se revelou. Deus tomou a iniciativa de se comunicar. Deus veio ao nosso encontro. Deus assumiu, inclusive, a linguagem humana para através dela partilhar conosco seu mistério, nos convidando a participar dele. Pois a iniciativa de se comunicar revela a inequívoca disposição de nos admitir como seus interlocutores e participantes do seu diálogo vital.

Neste contexto maior de “revelação” dá para harmonizar adequadamente as diversas ênfases com que se aborda este fato fundamental. Seja a ênfase de quem ressalta o valor da “Escritura”,  seja a ênfase de quem ressalta a permanente comunicação de Deus, expressa pela “tradição”.  Escritura e tradição se integram dentro do fato maior da revelação. Mas pela própria  natureza da “Escritura”, ela serve de baliza segura para encontrar as referências que nos guiam na acolhida do mistério que Deus quis nos revelar, e que nós somos chamados a expressar humanamente como resposta de fé.

Em todo o caso, neste “domingo da Bíblia”, e na véspera de mais um sínodo sobre a “Palavra de Deus”, podemos logo nos dar conta de quanto a iniciativa de Deus, nos provocando para um diálogo em nossa linguagem humana, ainda tem muitos pontos a serem aprofundados, se queremos estar atentos ao que ele quer nos dizer.

Dom Luiz Demétrio Valentini

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