Bendito o que vem em nome do Senhor

Careal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Com o domingo de Ramos e da Paixão do Senhor iniciamos a Semana Santa. Este Domingo sagrado celebra dois mistérios: (1) a Entrada solene do Senhor Jesus em Jerusalém para viver sua Passagem do mundo para o Pai e (2) o Mistério de sua Paixão, Morte e Sepultura. Daí o título deste dia: Domingo de Ramos e da Paixão. A procissão é de ramos; a Missa é da paixão.

A procissão de Ramos, que é precedida da sua bênção, é significativa. Deixemos que a poesia do Papa Bento XVI nos introduza neste mistério: “A procissão é antes de tudo um testemunho jubiloso que prestamos a Jesus Cristo, no qual se tornou visível para nós o Rosto de Deus e graças ao qual o coração de Deus está aberto a todos nós. No Evangelho de Lucas a narração do início do cortejo nas proximidades de Jerusalém é composta em parte literalmente segundo o modelo do rito da coroação com o qual, segundo o Primeiro Livro dos Reis, Salomão foi revestido como herdeiro da realeza de David (cf. 1 Rs 1, 33-35). Assim a procissão dos Ramos é também uma procissão de Cristo Rei:  nós professamos a realeza de Jesus Cristo, reconhecemos Jesus como o Filho de David, o verdadeiro Salomão o Rei da paz e da justiça. Reconhecê-l’O como Rei significa:  aceitá-l’O como Aquele que nos indica o caminho, no qual temos confiança e que seguimos. Significa aceitar dia após dia a sua palavra como critério válido para a nossa vida. Significa ver n’Ele a autoridade à qual nos submetemos. Submetemo-nos a Ele, porque a sua autoridade é a autoridade da verdade.” (http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2007/documents/hf_ben-xvi_hom_20070401_palm-sunday.html, último acesso em 05 de abril de 2019)

Jesus é saudado como o Rei de Israel, novo Davi, Messias que chega à Cidade de Davi! E Jesus, de fato, é Rei, é Messias! A festa de hoje é, em certo sentido, uma festa de Cristo Rei, Rei-Messias! É uma festa de exultação! Mas, estejamos atentos: ele entra na Cidade Santa montado não num cavalo, que simboliza poder e força, mas entra num jumentinho, usado pelos pobres nos serviços mais humildes e duros. Isto tem muito a nos dizer: Jesus é o Messias, mas um messias pobre, um messias servo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).       

Hoje Jesus quer também entrar triunfante na vida dos homens, sobre uma montaria humilde: quer que demos testemunho d’Ele com a simplicidade do nosso trabalho bem feito, com a nossa alegria, com a nossa serenidade, com a nossa sincera preocupação pelos outros. Quer fazer-se presente em nós através das circunstâncias do viver humano. Naquele cortejo triunfal, quando Jesus vê a cidade de Jerusalém, chora! Jesus vê como Jerusalém se afunda no pecado, na ignorância e na cegueira. O Senhor vê como virão outros dias que já não serão como estes, um dia de alegria e de salvação, mas de desgraça e ruína. Poucos anos depois a cidade será arrasada. Jesus chora a impenitência de Jerusalém. Como são eloquentes estas lágrimas de Cristo.

O Concílio Ecumênico Vaticano II, na Gaudium et Spes, nº 22, diz: “De certo modo, o próprio Filho de Deus se uniu a cada homem pela sua Encarnação. Trabalhou com mãos humanas, pensou com mente humana, amou com coração de homem. Nascido de Maria Virgem, fez-se verdadeiramente um de nós, igual a nós em tudo menos no pecado”.

A entrada triunfal de Jesus foi bastante efêmera para muitos. Os ramos verdes murcharam rapidamente. O hosana entusiástico transformou-se, cinco dias mais tarde, num grito furioso: Crucifica-o! Por que foi tão brusca a mudança, por que tanta inconsistência? São Bernardo comenta: “Como eram diferentes umas vozes e outras! Fora, fora, crucifica-o e bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas alturas! Como são diferentes as vozes que agora o aclamam Rei de Israel e dentro de poucos dias dirão: Não temos outro rei além de César! Como são diferentes os ramos verdes e a Cruz, as flores e os espinhos! Àquele a quem antes estendiam as próprias vestes, dali a pouco o despojam das suas e lançam a sorte sobres elas.

Quanto a nós, vamos com ele! Os ramos que trazemos nas mãos significam que reconhecemos Jesus como o Messias de Israel, prometido por Deus. Significam também que nos dispomos a segui-lo como o Servo que dá a vida na cruz. Levaremos estes ramos para casa. Devemos guardá-los num lugar visível durante todo o ano, para recordar nosso compromisso de seguir o Cristo num caminho de humildade e despojamento; segui-lo ainda quando não compreendermos bem os desígnios de Deus para nós… Seguir o Cristo, que confia no Pai até a morte e não se cansa de fazer da vida um serviço de amor. Seguir hoje em procissão com os ramos na mão significa proclamar diante do mundo que cremos nesse Messias humilde, silencioso, crucificado… loucura para o mundo, mas sabedoria de Deus; fraqueza para o mundo, mas força de Deus!

A Igreja nos lembra que a entrada triunfal vai perpassar todos os passos da Paixão de Cristo. Terminada a procissão mergulha-se no mistério da Paixão de Jesus Cristo: Na primeira Leitura, (Is 50, 4-7) descreve-se o Servo sofredor, na esperança da vitória final. Vemos nele a própria pessoa de Jesus Cristo. Na segunda leitura (Fl 2,6-11)  temos a chave principal de todo o mistério deste Domingo de Ramos: Jesus humilhou-se e por isso Deus o exaltou!

O Papa Bento XVI ensinou que: “No final do Evangelho para a bênção dos ramos ouvimos a aclamação com que os peregrinos saúdam Jesus às portas de Jerusalém. É a palavra do Salmo 118 (117), que originariamente os sacerdotes da Cidade Santa proclamavam aos peregrinos, mas que, entretanto, se tinha tornado expressão da esperança messiânica: “Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor” (Sl 118[117], 26; Lc 19, 38). Os peregrinos veem em Jesus o Esperado, que vem em nome do Senhor, aliás, segundo o Evangelho de São Lucas, inserem mais uma palavra: “Bendito seja Aquele que vem, o rei, em nome do Senhor”. E prosseguem com uma aclamação que recorda a mensagem dos Anjos no Natal, mas modificam-na de modo que faz refletir. Os Anjos tinham falado da glória de Deus no mais alto dos céus e da paz na terra para os homens de boa vontade. Os peregrinos na entrada da Cidade Santa dizem: “Paz no céu e glória nas alturas!”. Sabem muito bem que na terra não há paz. E sabem que o lugar da paz é o céu – sabem que faz parte da essência do céu ser lugar de paz. Assim esta aclamação é expressão de um sofrimento profundo e, ao mesmo tempo, é oração de esperança: Aquele que vem em nome do Senhor traga à terra o que está nos céus. A sua realeza torne-se a realeza de Deus, presença do céu na terra. A Igreja, antes da consagração eucarística, canta a palavra do Salmo com a qual Jesus é saudado antes da sua entrada na Cidade Santa: ela saúda Jesus como o Rei que, provindo de Deus, em nome de Deus entra no meio de nós. Também hoje esta jubilosa saudação é sempre súplica e esperança. Rezemos ao Senhor para que nos traga o céu: a glória de Deus e a paz dos homens. Entendemos esta saudação no espírito do pedido do Pai Nosso: “Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu!”. Sabemos que o céu é céu, lugar da glória e da paz, porque ali reina totalmente a vontade de Deus. E sabemos que a terra não é céu enquanto nela não se realiza a vontade de Deus. Portanto, saudemos Jesus que vem do céu e peçamos-lhe que nos ajude a conhecer e a fazer a vontade de Deus. Que a realeza de Deus entre no mundo e assim ele seja repleto com o esplendor da paz. Amém.” (http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2010/documents/hf_ben-xvi_hom_20100328_palm-sunday.html, último acesso em 05 de abril de 2019)

Nós somos chamados a escolher com que atitude queremos entrar na história da Paixão de Cristo: com a atitude de Cirineu, que se coloca ao lado de Jesus, ombro a ombro, para carregar com Ele o peso da cruz; com a atitude das mulheres que choram, do centurião que bate no peito e de Maria que fica silenciosa ao pé da cruz; ou se queremos entrar com a atitude de Judas, de Pedro, de Pilatos e daqueles que “olham de longe” para ver como irá terminar aquele episódio. Toda nossa vida é, em certo sentido, uma “semana santa” se a vivemos com coragem e fé, na espera do “oitavo dia” que é o grande Domingo do repouso e da glória eterna.

Vivamos, com grande piedade e intensamente, esta Semana Santa e celebramos os seus mistérios na graça do Senhor. Com Ele caminhemos para o calvário e com Ele ressuscitaremos na Páscoa para sermos testemunhas do Ressuscitado e arautos da paz e da concórdia, para que o mundo creia que o Senhor está no meio de nós!

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