Caminhos da missão em Moçambique

Um mês já se passou na missão em mossa Igreja irmã de Moçambique. Escrever em meio a tantas experiências é fácil e complexo. Fácil porque tenho necessidade

de relatar tantas novidades, complexo porque é arriscado em tão pouco tempo traduzir em palavras o que vejo, ouço e sinto. Fico também imaginando no que pensarão os leitores destas cartas. Quais seriam suas dúvidas? O que diriam se estivem aqui?

Na conversa com o arcebispo de Nampula, Dom Tomé, fiquei impressionado com o cenário de atendimento às paróquias. Das quarenta e duas, quinze estão sem padre, algumas a mais de dez anos. Aqui as paróquias são realmente grandes em número de comunidades e distâncias. Claro que o cenário é outro e também os desafios pastorais são distintos dos nossos no sul do Brasil.

Eu e o padre Fabiano, atendemos duas paróquias com cento e quarenta comunidades. Gostaria de apresentar alguns dados para compreenderem esta realidade. Só na paróquia de Micane que atendemos existem quatorze mil cristãos, o que representa seis por cento da população. Os demais são praticamente todos mulçumanos e de outras igrejas evangélicas. O nome cristão aqui significa e se identifica com o batismo e participação na comunidade através dos ministérios e partilha no dizimo. Todos os cristãos são dizimistas e participantes das celebrações. Aqui não há o termo católico não praticante, todos católicos praticam a sua fé. Nesta paróquia só nestes últimos oito meses o Pe.Fabiano realizou mil batismos. Sendo setenta por cento de adultos néo convertidos que participaram quatro anos da catequese de iniciação cristã. No distrito de Moma onde residimos a média de cristãos cai para dois e meio por cento. Há mesquistas em toda parte, havendo boa convivência entre as religiões.

Na sombra  das mangueiras, celebramos os sacramentos e temos momentos de intensa convivência. São visitas preparadas e esperadas a longo tempo. Na chegada da equipe missionária a comunidade entoa: “Chegou o dia prometido”. Preparam tudo em clima de festa. Oferecem o que tem de melhor. As famílias trazem seus alimentos para serem preparados e partilhados. É bonito de ver a partilha acontecendo. Ao redor do mesmo prato de karacata preparado a base mandioca seca, estão crianças, jovens e adultos. A chegada dos missionários é sempre na véspera dos sacramentos. Há  pouco tempo para conviver, contudo muito intenso. Quando saímos, não sabemos quando será a próxima visita. Talvez depois de um ano ou mais.

Nestas visitas me marcam de forma particular a maneira com que somos esperados e visados. Todos os olhos, desde a criança até idosos, estão fixos em nós. É uma espécie de fato que se torna acontecimento. Qualquer gesto, palavra ou mesmo fotografia que registramos tornam-se evento único que desperta naquela multidão um mistura de curiosidade e alegria pela visita tão diferente. Algumas crianças correm de medo e choram pela presença de um branco na comunidade, mucunha como costumam chamar. Dedico muito tempo em inventar brincadeiras e tentar qualquer tipo de comunicação com eles, já que não falo a língua Makua. Ao se verem nas fotos ficam perplexos. É algo inexplicável a repercussão de nossas visitas. Sentem-se reconhecidos pela nossa simples presença. Lá não chegam autoridades civis, enfermeiros ou médicos. As curtas estradas que cortam as roças costumam só passar o carro da equipe missionária.

Daqui de nossa pobre Igreja irmã, dirijo meu apelo a Igreja do Rio Grande do Sul que pense, neste tempo de despertar da consciência missionária, no envio de novos missionários e missionárias, leigos(as), religiosos (as) de modo particular presbíteros que ousam percorrer caminhos da radicalidade evangélica.

Pe. Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique

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