Campanha de Evangelização

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

No Terceiro Domingo do Advento, o domingo Gaudete, temos a coleta nacional para a evangelização, dentro da proposta da Campanha para a Evangelização, neste ano com o tema “Cristo é nossa paz”, abrindo assim o Ano Nacional da Paz, que irá até o Natal de 2015.

Evangelizar (“dar a boa notícia”) é a grande tarefa da Igreja; é para isso que ela foi fundada, enviada e sustentada pela força do Espírito Santo. “A Evangelização obedece ao mandato missionário de Jesus: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado” (Mt 28, 19-20)”. (EG 19)

Esta boa notícia não é outra coisa a não ser o amor de Deus, um amor tão incondicional, tão absoluto, tão veraz como a Cruz; um amor que não é simplesmente “pela humanidade”, mas por mim e por você; um amor que não é produto da ganância ou da conquista pessoal, mas gratuidade benevolente do Senhor.

É um amor gratuito, tão gratuito que não é merecido nem está sujeito às mudanças do nosso comportamento – ainda que necessariamente conduza a elas. Não é fácil evangelizar, pois isso requer a experiência pessoal do amor de Deus, da sua ternura, da sua compaixão e do seu “fazer novas todas as coisas” em mim; sem isso, podemos simplesmente transmitir verdades de fé reveladas pela Escritura, mas que correm o risco de nos tornar cristãos frios, desses que defendem conceitos, mas não permitem que estes transformem a própria vida.

Evangelizar é mostrar os braços abertos de Jesus na cruz, que diz: “Eu fiz tudo isso por você”. É isso que realmente transforma o coração e nos leva à experiência de uma vida nova. Evangelizar é acender uma luz. Mas, como se acende esta luz? Mostrando a verdade. Que verdade? A verdade de uma pessoa, a verdade que é Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Só que este conhecimento da pessoa de Jesus não se limita a “saber coisas” sobre Ele, mas significa viver a experiência do seu amor, compreender que o que Ele fez tem relação direta comigo.

Não se evangeliza enchendo a cabeça de conceitos. Uma fé que só toca a razão pode nos tornar fanáticos; por outro lado, uma fé que só toca as emoções pode nos tornar instáveis. Mas uma fé que toca a razão, a vontade e as emoções é tão poderosa que transforma a vida de maneira notável. É aqui que o comportamento se transforma; é aqui que se aprende que, pela fé, se entrega a própria vida pelo bem dos outros.

Evangelizar é declarar o amor de Deus a cada pessoa, para que esse amor leve à conversão. É mostrar o rosto da Igreja: rosto da misericórdia e do respeito, rosto da bondade e do acolhimento, rosto daquela que é Mãe e Mestra. Aliás, é toda essa preocupação que temos ouvido do Papa Francisco em seus discursos, escritos, homilias.

Fazer com que as pessoas percebam o seu valor para Deus não é uma opção. São Paulo chega mesmo ao ponto de dizer “Ai de mim, se eu não evangelizar!” (1 Coríntios 9,16). Para S. Paulo, a evangelização surge como a consequência direta da sua ligação a Cristo. Pela sua ressurreição, Cristo une-nos a Deus de um modo inseparável. Ninguém pode se sentir excluído desta união. E, ao mesmo tempo, a humanidade já não se encontra fragmentada: desde a ressurreição, pertencemos uns aos outros.

No entanto, a questão mantém-se: como podemos anunciar essa Boa Nova a quem não conhece nada de Deus e parece nada esperar de Deus? Primeiro de tudo, pela nossa própria ligação a Cristo. S. Paulo disse: “Vós revestistes-vos de Cristo” (Gálatas 3,27). A evangelização apela a que comecemos por nós próprios. É, sobretudo, com a nossa vida que damos testemunho da realidade da ressurreição: “Assim, posso conhecê-lo a ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos” (Filipenses 3,10-11). É pela nossa certeza, pela nossa alegria serena em saber que somos amados por toda a eternidade, que Cristo se torna credível aos olhos daqueles que não O conhecem.

Porém, há situações em que as palavras são necessárias. O Apóstolo São Pedro diz isso muito bem: “Estai sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça” (1 Pedro 3,15). É claro que falar de um amor íntimo requer muita sensibilidade e, por vezes, é difícil encontrar as palavras corretas, especialmente em situações em que a fé é fortemente posta em questão. Jesus tinha consciência disso e disse aos seus discípulos: “Quando vos levarem (…) às autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, pois o Espírito Santo vos ensinará, no momento próprio, o que deveis dizer” (Lucas 12,11-12).

Porque Cristo se revestiu da nossa humanidade e nós nos revestimos de Cristo, nunca deveríamos ter medo de não saber como falar. A vocação cristã de acolher todos sem discriminação, em detrimento de escolher apenas aqueles que amamos, tem em si uma generosidade que é tocante e, mais do que isso, que cobre o outro com a vida de Cristo. Enquanto servos, partilhamos o nosso manto com aqueles a quem servimos, à semelhança do próprio Cristo que, quando lavou os pés dos seus discípulos, “tirou o manto” (João 13,4). É, acima de tudo, a gratuidade dos nossos atos que falará por nós e que dará autenticidade às palavras que proferimos.

Para melhor evidenciar a Evangelização e saber que somos Igreja em constante missão-evangelização, a Igreja no Brasil teve a iniciativa, desde o ano de 1998, de mobilizar os católicos a assumir a responsabilidade de participar da missão evangelizadora e da sustentação das atividades pastorais da Igreja.

Neste ano, o lema da Campanha de Evangelização (CE) é: “Cristo é nossa paz”, apropriado para o tempo do Advento no início do ano litúrgico e na abertura do Ano Nacional da Paz. Esta campanha acontece justamente num período de preparação para o Natal, entre pessoas, famílias e na sociedade em geral. A campanha assumiu o tema: “Evangeli.Já”, que faz referência à palavra evangelizar e a urgência da evangelização e da cooperação de todos.

Mãos à obra… e sejamos todos generosos para ajudar a evangelizar aonde se tem carência de recursos. Neste Terceiro Domingo do Advento, o Domingo Gaudete, participemos conscientemente da coleta para a evangelização! Deus abençoe a sua generosidade!

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