Casos da ditadura

Dom Benedicto de Ulhoa Vieira

Leio nos jornais a revolta do povo egípcio contra a ditadura do atual presidente do Egito – Mubarak, que está no poder há “apenas” trinta anos. Se há algo antipático e revoltante é a figura do ditador, cuja vontade se torna a lei suprema do país. Apesar de, até domingo passado, terem já 72 mortos a revolta popular no Egito continuava.

No passado nós, brasileiros, já tivemos alguns períodos, de regime ditatorial, felizmente extintos. Os mais velhos não só se lembram de como eram as coisas e como a liberdade de falar e agir era rígida, restrita e perigosa. Graças a Deus isto passou e é de esperar que tais dolorosas experiências nunca mais voltem a nosso país. O único regime que respeita a dignidade das pessoas é o regime de verdadeira democracia.

Durante o regime de 64, trabalhava eu na Universidade Católica de São Paulo, onde – além de lecionar – ocupava o cargo de vice-reitor e, fora, o de “pároco dos universitários”. Não era uma paróquia territorial, mas pessoal.

Vários fatos eu vivi naquela triste época, de que não consigo esquecer-me. Um deles foi a greve de fome dos presos políticos. Não era o juiz que dava licença para a visita aos grevistas, mas o Comandante Militar que atendia no Quartel do Ibirapuera. Fui lá, após receber resposta negativa do Juiz. Consegui falar com o General, homem difícil e super autoritário, a quem expliquei minha função religiosa e pastoral. Consegui a licença, com a brutal conclusão do General que gritou: “Por motivo religioso, sim. Se for para fazer política, não!”. A greve de fome preocupava a todos, a ponto de o próprio Núncio Apostólico ter vindo do Rio, onde morava, a São Paulo para conversar com os grevistas e pedir-lhes que deixassem a greve. Tempos difíceis.

Outro fato: como bispo auxiliar fui ao quartel do Ibirapuera saber algo de pessoa presa e, após demorada espera, fui atendido na portaria por um militar graduado, que ao dizer-lhe ser eu auxiliar de Dom Paulo Evaristo, o homem perdeu o respeito ao seu cargo e gritou na minha cara atacando Dom Paulo: “Este homem é comunista!”. Lembrei-me neste momento de uma palestra do psiquiatra Bachir Aidar Jorge, na qual ele dizia que há certas ocasiões em que o interlocutor só entende a coisa, quando a gente explica com grito e agressivamente. Gritei fortemente ao militar: “O Sr. não tem o direito de dizer isto do Cardeal”. Ele calou assustado e me disse com educação: “vamos à minha sala para conversar”. Fomos e ele então me tratou com dignidade e educação, chegando até a conversar confiadamente sobre pessoas da Igreja, com acusações, evidentemente falsas de “comunistas” (!), com inquéritos lá na operação Bandeirantes. Época da ditadura…

Conto estes fatos, para exemplificar as dificuldades quando se vive sob regime ditatorial. Quem viveu no período após 64, sabe por triste experiência que o único regime, que não agride a dignidade é o democrático.

Daí se pode entender a insatisfação do povo do Egito, em querer – após trinta anos do governo de Mubarak! – que se possa ter outro regime político que tenha nome e lei democrática, respeitando a dignidade da pessoa humana e com alternância de poder. Seria sonho ou direito? Está em jogo a dignidade humana o que é totalmente impossível em qualquer regime ditatorial.

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