Conversão de São Paulo

“Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1, 11-12).

São Paulo, o Apóstolo espiritualmente profícuo:

São Paulo, o Apóstolo que banhou a sua pena no sangue do seu coração; e assim, fez chegar aos nossos olhos sua entrega do mais doce Amor, nunca se mostrou preocupado em delinear uma doutrina, uma própria originalidade, mas deixou evidente a sua experiência de Amor com Jesus Cristo, manifestada de modo sublime em sua conversão.

Naquele exato momento de sua conversão, nunca mais São Paulo escolheria e atuaria sozinho em sua vida. Suas escolhas e cada uma de suas atuações seriam ecos do ensinamento da Prática de Amor de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Escolheu e agiu sendo simplesmente a boca de Cristo e da Sua Igreja ao longo do caminho que se deve percorrer para chegar ao Todo Poderoso e Piedoso Deus. Afinal, na sua Carta aos Gálatas, São Paulo escreve que Deus queria “revelar o seu Filho em mim, para que O anunciasse entre os gentios” (1, 16). Ele não fala de Cristo que se revelou “para mim”, mas sim de Cristo que se revelou “em mim”.

Uma vez que Jesus toca Saulo no caminho de Damasco, e que Paulo faz sua confissão de Amor, o próprio Apóstolo se torna revelação, transforma sua vida numa declaração da Misericórdia Divina.

Por isso, que todos nós, Batizados, podemos e devemos nos transformar em Apóstolos de corações bem abertos, rumo ao Pai.

Como São Paulo, devemos conhecer, sobrenaturalmente, tudo o que pensamos, dizemos e fazemos, no nosso corpo, na nossa mente, para que nossas escolhas e ações evidenciem o modelo vivo e presente de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Amor, a toda manifestação do mal no mundo.

Os testemunhos de São Paulo expõem a necessidade de todo cristão ser espiritual- mente profícuo, aquele que aprova os conhecimentos teóricos transmitidos, mas sobretudo faz deles alimento cotidiano para sua alma.

O acontecimento da conversão de São Paulo é beneficio espiritual para todos nós, porque evidencia a condição básica para conseguirmos penetrar na realidade sobrenatural e Sagrada: a Humildade intelectual, que oferece todas as condições do homem entrar e conhecer de modo real, a profundidade e a seriedade do Som da Voz de Deus, e posteriormente conseguir revelar o seu “SIM” definitivo ao Verdadeiro Amor.

Afinal, o coração do Homem alcança a necessária humildade, para ouvir o Som da Voz de Deus, quando abandona qualquer tipo de pensamento que o escravize na reflexão do sentido e significado da existência. No seu coração São Paulo permane-ceu um simples homem convertido ao Amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, em sua mente a convicção que o único e verdadeiro sentido da sua existência seria Amar e ser Amado, guiado no exemplo vivo de Cristo. Por isso, foi decididamente o servo dos servos.

A conversão de S. Paulo aumenta-nos a fé; faz-nos crer nos desígnios Divinos para cada um de nós, é a conversão ao Amor, Deus no Homem, e o Homem em Deus:

“Eu sou Jesus, a Quem tu persegues.” (Atos dos Apóstolos 9,5)

São Paulo identificou-se completamente no Amor a Jesus Cristo, numa experiência pessoal, na Pessoa do Verbo Encarnado. Na paixão ardente, pela qual deu a vida, pondo ao serviço do Espírito Santo toda a sua inteligência, e a sua fé.

A importância da conversão de São Paulo, para cada um de nós, é que este acontecimento identifica-se com o Resplendor da verdadeira conversão, e ao mesmo tempo, da simples conversão de um cristão: O Cristo ressuscitado mostra-se como uma Luz Maravilhosa e ilumina a mente e o Coração do Homem, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. Cura sua cegueira interior para seguir o Caminho, a Verdade e a Vida.

Na Igreja antiga do Oriente, o batismo era chamado também “iluminação”, porque este sacramento faz ver realmente. Sabemos que São Paulo foi cercado por uma súbita e intensa luz. A Luz do Apóstolo, que veio iluminar, verdadeiramente, sua Obra, ou seja, todos os seus escritos. Por exemplo, os gregos de Corinto e Atenas permaneciam impressionados com os ensinamentos de São Paulo. Seu discurso não era cativante com Palavras de Sabedoria Humana, mas com Palavras de Sabedoria do Espírito Santo.

São Paulo não recebeu o Espírito Santo com a iluminação inicial, mas três dias depois com a colocação das mãos de Ananias sobre ele, em Damasco, e depois no Batismo (Atos 9,17).

Portanto, como São Paulo, podemos ser transformados para escolher e agir pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderemos duvidar, porque neste encontro do Homem com Deus habita a força transformadora do Amor. Jesus Cristo mudou, com Amor e por Amor, a vida de São Paulo; e é possibilidade de mudança para a nossa.

São Paulo foi a testemunha da ressurreição de Jesus, juntamente com a missão de primeiro Apóstolo após sua morte. Sua experiência ocorreu após a morte, ressurreição e ascensão de Cristo. Ao contrário dos outros Apóstolos, o que São Paulo aprendeu dos Mistérios de Deus aprendeu por revelação, e não por convivência direta, no contato com a carne e sangue de Jesus. Neste sentido, São Paulo é um de nós Batizados, capazes de fazermos tudo em todos, tudo para todos, convidados, como São Paulo, a encontrar o Amor em Jesus Cristo.

“E, em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15, 8).

Lembremo-nos, que no Antigo Testamento, a noção de conversão é expressa de maneira muito concreta através do verbo “voltar”, ou seja, “voltar atrás”:

“Convertei-vos a mim de todo o vosso coração!” (Jl 2, 12-13)

Igualmente, no Novo Testamento, a Conversão de São Paulo demonstra que a autêntica conversão não é a uma ideologia, mas sim a uma experiência individual de Amor com Nosso Senhor Jesus Cristo.

A conversão não é uma experiência que pode ser experimentada sem a partilha de Amor com meu próximo, sem a confiança incondicional pelo meu próximo e por Deus, e sem nossa capacidade de discernir o que posso e como posso escolher e agir nesta vida. Por fim, tomando como exemplo a conversão de São Paulo, aprendemos que uma conversão verdadeira deriva, e frutifica, apenas num coração e numa mente determinados a voltar, a regressar a Deus, a reconhecer o Amor.

O Apóstolo Paulo ajuda-nos a tirar as conclusões que derivam da nossa escuta da Palavra de Deus. Ele exorta os cristãos de Corinto a deixar-se reconciliar com Deus. Efetivamente, a conversão é reconciliação: a vertical, com Deus, que cada cristão deve cultivar em primeiro lugar no seu coração e na sua mente, e à qual há de corresponder a horizontal, com os irmãos.

Por fim, amados irmãos, apenas o livro da nossa vida pode dar testemunho ao mundo, de que a conversão e a reconciliação com Nosso Senhor, tal qual São Paulo, é possível hoje e agora!

† Dom Farès Maakaroun
Arcebispo da Igreja Greco-Melquita Católica no Brasil

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