Cristo nos convida: “Venham, meus amigos!” Cristo nos envia: “Sejam missionários!”

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

De 23 a 28 de julho de 2013, há 6 anos, o Rio de Janeiro ganhou um colorido especial. As cores da esperança, da riqueza espiritual e da disponibilidade de ser peregrino invadiu as ruas, avenidas, casas, regiões, salões, casas, comunidades da cidade maravilhosa acompanhada pelo então recém-eleito Papa Francisco.

O sentimento de ansiedade e inquietude que eu, como arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, carregava por estar à frente de um evento desta magnitude logo foi abraçado pelos múltiplos sorrisos e a confiança de que tudo sairia conforme a vontade de Deus. Agradeço o apoio de todos que comigo partilharam esse sonho. Agradeço pelo empenho em fazer o melhor e acolher a todos com alegria. Louvo a Deus pela missão evangelizadora que todos desempenharam em cada setor desse acontecimento marcante.

Eu não era o único inquieto, as famílias estavam ansiosas para receberem os peregrinos, os voluntários se capacitaram e estavam de braços abertos para fazer a festa da juventude acontecer. Os detalhes deixavam tudo mais especial, por onde eu passava a energia da juventude me contagiava com os cantos de múltiplos idiomas a beleza e comunhão das comunidades na liturgia, nas celebrações… Eu tive um privilégio especial de ver tudo isso ao lado do Papa em seu veículo e assim pude sentir todo o acalanto do povo de Deus pelas ruas e praças.

A multiplicidade religiosa, cultural e os impactos sociais mostravam que não era um evento para um grupo específico, era um evento para cidade, o povo carioca acolheu os peregrinos e deu um show de simpatia e de Evangelho na prática. Uma das cenas que mais me emocionou foi ver os jovens limpando a praia de Copacabana e ajudando no recolhimento do lixo de maneira espontânea e generosa. Alegrou-me também o depoimento que os trens, o metrô e os ônibus estavam ainda mais higiênicos e limpos com a passagens dos jovens da JMJ. Os próprios moradores acolheram, na medida do possível, os jovens em muitas de suas necessidades, aliás, superaram o que foi pedido com o “jeitinho” brasileiro de acolher bem.

O roteiro do Papa Francisco contemplou as favelas, as comunidades e as autoridades. Na TV brasileira a notícia era uma só e levava a emoção da jornada para os brasileiros que não conseguiram celebrar presencialmente. Copacabana que é acostumada a receber grandes eventos nunca viu multidão deixar ruas e as areias limpas.

A jornada foi um verdadeiro legado ao Rio de Janeiro, um legado à memória do povo, um recado que ecoa até hoje e aquecem meu coração. Recebo relatos de casais que formaram família após se cruzarem na fila dos restaurantes, religiosos que celebram a descoberta da vocação nos dias da jornada e jovens que criaram laços de amizades tão fortes capazes de ampliar o intercâmbio cultural para além da jornada. É muito importante fazer memória de acontecimentos assim para que possamos sonhar com um futuro de paz e harmonia.

O Papa Francisco, no avião que o levou de volta para Roma, assim fez um balança da JMJ Rio 2013: “Eu estou feliz. Foi uma bela viagem; espiritualmente fez-me bem. Estou bastante cansado, mas com o coração alegre, e estou bem, muito bem; fez-me bem espiritualmente. Encontrar as pessoas faz bem, porque o Senhor trabalha em cada um de nós, trabalha no coração, e a riqueza do Senhor é tão grande que sempre podemos receber muitas coisas bonitas dos outros. E isso faz-me bem. Isto, como um primeiro balanço. Depois direi que a bondade, o coração do povo brasileiro é grande; é verdade: é grande. É um povo muito amável, um povo que ama a festa; um povo que, mesmo na tribulação, sempre encontra uma estrada para buscar o bem em algum lugar. E isso é bom: é um povo alegre, o povo sofreu tanto! É contagiosa a alegria dos brasileiros, é contagiosa! E tem um grande coração, este povo. Depois diria os organizadores, tanto da nossa parte, como da parte dos brasileiros; eu senti que me encontrava na frente de um computador, aquele computador em carne e osso… É a pura verdade! Estava tudo cronometrado, não estava? Mas era belo. Depois, tivemos problemas com as hipóteses de segurança: a segurança daqui, a segurança de lá; não houve um incidente em todo o Rio de Janeiro, nestes dias, e tudo era espontâneo. Com menos segurança, eu pude estar com a gente, abraçá-la, saudá-la, sem carros blindados… é a segurança de confiar em um povo. É verdade que existe sempre o perigo que haja um louco… sim, que haja um louco que faça alguma coisa; mas há também o Senhor! Entretanto criar um espaço blindado entre o bispo e o povo é uma loucura, e eu prefiro aquela loucura: estar fora e correr o risco da outra loucura. Prefiro esta loucura: fora. A proximidade faz bem a todos.”

(https://www.a12.com/redacaoa12/santo-padre/integra-da-entrevista-do-papa-francisco-no-voo-de-volta-a-roma, último acesso em 22 de julho de 2019).

O Papa Francisco fez um resumo de seus dias felizes no Brasil: “Em seguida, a organização da Jornada, não me refiro a algo de específico, mas tudo: a parte artística, a parte religiosa, a parte catequética, a parte litúrgica… foi lindíssimo! Eles têm uma capacidade enorme de expressar-se na arte. Ontem, por exemplo, fizeram coisas lindíssimas, lindíssimas! Depois, Aparecida: para mim, Aparecida é uma experiência religiosa intensa. Lembro-me da V Conferência; eu tinha estado lá a rezar, a rezar. Eu queria ir sozinho, passar quase despercebido, mas havia uma multidão impressionante… Não era possível! Isso já o sabia antes de chegar. E nós oramos. Eu não sei… uma coisa… mas agora da parte de vocês. Seu trabalho, segundo me dizem – eu não li os jornais nestes dias, não tinha tempo, não vi a TV, nada – mas dizem-me que foi um trabalho bom, bom, bom! Obrigado! Obrigado pela cooperação, obrigado pelo que fizeram! Depois, o número, o número dos jovens. Hoje – eu nem posso crer – mas hoje o Governador falava de três milhões. Quase não posso acreditar. Mas olhando do altar – isso é verdade! – não sei se vocês, alguns de vocês estiveram no altar: olhando do altar, no final, toda a praia estava cheia, até a curva; mais de quatro quilômetros. Tantos jovens! E dizem – disse-me Dom Tempesta – que eram de 178 países… 178! Também o Vice-Presidente disse-me este número: isso é certo. É importante! Forte!” (https://www.a12.com/redacaoa12/santo-padre/integra-da-entrevista-do-papa-francisco-no-voo-de-volta-a-roma, último acesso em 22 de julho de 2019).

Nós temos muito que agradecer e bendizer a Deus pelos frutos que a JMJ Rio 2013 deixou em favor da Igreja no Brasil e da nossa Arquidiocese. A juventude que ouvindo o Papa se colocou a testemunhar a amizade de Cristo Ressuscitado e Vivo em todos os ambientes. Que a luz do Evangelho da vida, que nos convida por Cristo a fazer amigos leve a todas as pessoas ao anúncio do Kerigma cristã em suas realidades, ecoando em nossas comunidades e em nossos corações!

Os peregrinos que lá estavam, que fizeram “vaquinhas”, rifas e muitas economias para poderem participar do evento, hoje são profissionais, transformadores sociais, fieis em suas paróquias, são multiplicadores do amor de Deus e não há dúvidas de que aquele sopro missionário que invadiu a América Latina e deixou o seu recado ao mundo fará parte não apenas da memória dessa juventude, mas também das atitudes de filhos que atenderam ao convite: “Venham, meus amigos!”

 

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