Crônica

Passo fundo, 17 de novembro de 2009.

Chispa daí moleque! Tem gente rezando! Teu lugar não é aqui! Você não presta para nada! Que programa de índio!

Trabalhei alguns anos no CAPS Simão Bacamarte como referência de alguns pacientes psiquiátricos. Lá eu pude ver, na prática, aquilo que a teoria diz. Pude sentir o peso que cada palavra tem na definição daquilo que você é ou se tornará.

Semana passada, li um artigo da senhora Navanethem Pillay, uma alta comissária da ONU para Direitos Humanos, cujo título era: “Afro-brasileiros e indígenas estão atolados na pobreza”.

Esta afirmativa é verdadeira e deveria levar-nos ao questionamento: Por que e como, em um país de maioria negra ou mestiça, isto acontece? Por que os indígenas, outrora donos da terra, continuam às margens da sociedade? Por que crianças negras, ainda hoje, entram na água sanitária para clarear a pele? Por que, até mesmo nas religiões em que é pregada a igualdade, se tenta delimitar os nossos espaços ou limitar os passos? Ou ainda, por que esses grupos não conseguem se organizar? Ou melhor, se um pequeno grupo o consegue, por que as respostas vêm tão lentamente?…

Deram-nos uma falsa abolição e, de forma muito sutil, foram incorporando em nosso subconsciente essa idéia de inferioridade e servidão; e, padoko padoko (pouco a pouco), foram nos empurrando para o atoleiro da pobreza.

Penso que é o poder da palavra que atravessa gerações, que entra pelos ouvidos, que penetra na alma, no subconsciente, definindo assim o nosso estado e, muitas vezes, aquilo que nos haveremos de tornar, ou não. Assim definem nossa identidade.

Imaginem uma população, ouvindo por séculos, que ela é inferior, seja em um momento de fúria ou em uma simples brincadeira. Que força essa população tem para sair do atoleiro? Para se erguer e caminhar?

Certa vez, ouvi de uma pessoa a seguinte afirmação: “Teu lugar não é aqui! Tem gente rezando!” Isto me feriu demais, até porque a frase veio de uma pessoa de quem gosto muito. Não foi dirigida a minha pessoa, mas a um grupo de crianças que brincavam enquanto outro rezava. Por acaso essas crianças eram encardidas, sujas, indígenas, negras…

Aquela expressão e a forma como foi proferida remeteu-me a um passado em que convivi com um grupo de crianças que também não tinham vez, nem voz e nem o direito de serem crianças. Um dos únicos espaços que elas tinham era o quintal de sua casa, ou o quintal da minha casa. Lembro que era uma luta todos os dias…

Hoje aquelas crianças são adolescentes e têm muita dificuldade em sair daquele atoleiro que a sociedade pré-determinou para eles. Têm dificuldade em acreditar que eles podem ser mais, ousar mais, sonhar mais, conquistar mais… As frases negativas fizeram ninho em seus pensamentos, minaram os seus sonhos…

De brincadeira ou não, palavras são ditas e marcam e ficam e constroem aquilo que você é, e destroem aquilo que você poderia ser…

Infelizmente, percebo que há um grupo de pessoas que não se admite, não se reconhece, não é racista, mas que continua com suas brincadeiras, ou com sua maneira de falar ou de agir que, se não fere o corpo, como as chibatadas de outrora, pelo menos contribui para a hemorragia da alma.

Axé,

Heloísa Helena Bento

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