Cultura da Vida e Morte Social: construir e superar

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar  da Arquidiocese de Niterói

 

Estamos para iniciar o “Tempo Favorável”, no qual está inserida a Campanha da Fraternidade (CF) como itinerário de conversão quaresmal. Trata-se de “um caminho pessoal, comunitário e social que visibilize a salvação paterna de Deus”.  O objetivo principal da CF é a construção da fraternidade, por meio da conversão pessoal e social. O Tema deste ano “Fraternidade e Políticas Públicas” está situado na chamada “Terceira Fase” da CF: A Igreja se volta para situações existenciais do povo brasileiro. “Nesta fase, a Igreja, com a realização das CF, tem contribuído ao evidenciar situações que causam sofrimento e morte em meio ao povo brasileiro, nem sempre percebidas por todos”. A CF, com a sensibilização e o chamado ao comprometimento é, sem dúvida, um caminho de conversão. Como alerta o Papa Francisco: “Não podemos propor um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo” (GE, n.101). Nesse sentido, cabe recordar o ensinamento do Papa Emérito Bento XVI, sobre a relação Igreja, Estado e Política: “A Igreja não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela vida da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça” (Bento XVI,Deus Caritas Est, n. 28).

O Objetivo Geral da CF 2019 é “Estimular a participação em políticas públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade”. Políticas Públicas, como resolução de problemas urgentes e persistentes,  “são as ações do Estado ou do Governo na solicitude para com os mais necessitados. Tornam-se para todos os cidadãos expressão do Direito e da Justiça. Como cristãos, somos convidados a participar da discussão, elaboração e execução de Políticas Públicas. O fazemos porque somos discípulos missionários”  (CF 2019).  Constata-se que o tema deste ano está em continuidade com o do ano passado: “Fraternidade e Superação da violência”. O real se impõe e pede resposta. As Políticas Públicas são meios para a superação da violência e promoção da vida, com qualidade e dignidade.  O agir cristão nesse âmbito é uma verdadeira obra de misericórdia, porque “O homem que sofre nos pertence!” (S. J. Paulo II).  Trata-se do direito a ter direitos. A negligência dos direitos pode levar à morte social. As políticas Públicas são meios eficientes para melhorar a realidade pessoal e social, para a promoção humana e valorização da vida e para impedir as mortes precoces e evitáveis (morte mistanásica ou social).

Por essa razão, apresentarei aos leitores(as), minha reflexão sobre a morte social (mistanásia) e a bioética (ética da vida), considerando que a Igreja é entendida como “povo da vida e pela vida”, que luta contra a cultura de morte e defende a vida em todas as suas fases e situações.  A reflexão se dividirá em três textos que serão apresentados sequencialmente, que devem ser lidos à luz da Quaresma e Páscoa, da Campanha da Fraternidade e do comprometimento cristão com a Cultura da Vida.

Mistanásia, neologismo cunhado em 1989, por Márcio Fabri dos Anjos, teólogo bioeticista, para designar a morte precoce e evitável, miserável e infeliz, antes da hora. Trata-se de um final de vida injusto. Ao fazer uma contraposição entre eutanásia e mistanásia, ele afirma, categoricamente, em seu texto referencial que tanto o viver quanto o morrer devem ser revestidos de dignidade. Não se trata de matar, ajudar ou deixar morrer, mas de morte antecipada e totalmente precoce (“anacrotanásia”) por causas previsíveis e preveníveis, mortes escondidas e não valorizadas. Nasce uma bioética profética, crítica, afirmativa e preventiva. A mistanásia é geralmente a morte do pobre, resultado de uma vida precária e com pouca ou nenhuma qualidade. É uma morte indireta, causada pelo abandono, omissão ou negligência social e também pessoal. Por essa razão conceituamos como “Morte Social”. M. Fabri esclarece que mistanásia quer significar a morte de pessoas cujas vidas não são valorizadas, acontecem nos porões da sociedade, no submundo; por isso são desconhecidas, desconsideradas ou mesmo ocultadas. O desvelamento da morte silenciosa também é um modo de se atribuir justiça às suas vítimas, insistindo no argumento da responsabilidade moral pela vida confiada: a morte mistanásica “do outro” é sempre um evento “dos outros”; implica não deixar morrer. Mistanásia é um conceito de grande poder provocatório e convocatório, sobretudo no campo ético-moral, justamente por ser capaz de deslocar o foco ao situar a morte precoce na esfera do “mal evitável”, evocando o princípio moral de “evitar o mal”.

A Encíclica “Evangelho da Vida”, do saudoso Papa São João Paulo II, define a Igreja como “povo da vida e a favor da vida” e alerta para o “número sem fim de pobres para quem se torna difícil viver” (EV, n. 105). Essa é a realidade que se impõe e pede de nós, cristãos, uma resposta e comprometimento à luz de nossa fé em Cristo Ressuscitado. Na Palavra de Deus, encontramos inúmeros textos que fundamentam nossa responsabilidade moral pela vida que nos foi confiada pelo Criador.  Por exemplo: caminhar e lutar pelo “novo céu e a nova terra” onde “não mais haverá morte, nem pranto, nem gritos, nem dor” (Ap 21,4); “ninguém gerará filhos para morrerem antes do tempo” (Is 65,23).  Continua na próxima edição…

Desejo a todos e todas um profícuo tempo quaresmal!

Com o meu abraço fraterno e bênção,

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