Desastre, acidente ou crime?

Dom Guilherme Antonio Werlang
Bispo de Lages (SC)

 

Não gostaria escrever sobre o rompimento da barragem em Brumadinho, até porque desde ontem de tarde é o que está em todas as bocas, em todas as rodas de conversas, em todas as notícias, mas não dá para ignorar, fechar os olhos ou ficar calado.

De antemão já sei que depois de passar o primeiro impacto e a primeira comoção regional, nacional e mundial, tudo continuará como antes com todas as demais empresas e empresários criminosos que têm como primeiro, único e último objetivo o lucro e o enriquecimento. Ninguém será preso, porque os donos das multinacionais trazem lucros e aumentam o PIB do Brasil, ou se num eventual milagre da justiça brasileira alguém for punido, será a pessoa jurídica da Vale, ou o segundo e terceiro escalão de funcionários, mas não os donos.

AS VIDAS HUMANAS E DA NATUREZA NÃO SE COMPRAM E NÃO SE PAGAM OU RESTITUEM COM DINHEIRO, MESMO SE FOREM BILHÕES.

Eu sou testemunha pessoal e ocular, por exemplo, de construtoras de hidrelétricas e mineradoras onde o IBAMA e outros órgãos oficiais e federais constataram cientificamente muitas irregularidades, ameaças e danos ao meio ambiente, prejuízos sociais, e sem corrigir  NADA sobre nenhuma denúncia, depois de algumas “reuniões” em Brasília com Políticos e Ministros de Governo e ações nos Palácios municipais e nos Fóruns locais,  as barragens foram construídas e entraram funcionamento e as mineradoras autorizadas e instaladas e “que o resto – povo atingido e a natureza – que se dane e vá para o inferno” (perdão pela força da palavra, mas é bem isso que pensam e dizem).

Professores universitários, inclusive com doutorado ou pós doutorado em geologia, biologia, botânica e meio ambiente, Movimentos Sociais, Líderes Religiosos e atingidos foram judicializados, impedidos de se aproximarem das áreas onde as barragens ou mineradoras seriam construídas e alguns foram criminalizados para que ninguém mais se atrevesse dificultar ou impedir suas garras, dentes e tratores. Inclusive eu fui acusado ou difamado como “perigoso”, “atrasado” e contra o desenvolvimento e progresso e incitador do povo pobre e marginal.

Também já tive que participar em diversas ocasiões na Câmara Federal, no Senado e no Superior Tribunal de Justiça de audiências públicas, que nada são a não ser cumprir formalidades, porque tudo já está decidido antes, devido os crimes ambientais e sociais de mineradoras, hidrelétricas e usinas de cana. sempre a voz do lucro e do dinheiro fala mais alto diante dos políticos, desembargadores, juízes e governos. São audiências pró forma, mas onde a voz do povo e de seus aliados é silenciada, ignorada, ridicularizada, esmagada e criminalizada.

1 – DESASTRE vem do latim dis + aster, astrum, que significa “mau”, “contrário”, “inadequado” + “astro, estrela”.

Logo, a palavra “desastre” originalmente representaria uma desgraça ocasionada por uma influência negativa ou danosa dos astros ou estrelas.

“Desastre” (do grego, “má estrela”) é um evento de causa natural que afeta a normalidade do funcionamento social e, por extensão, provoca danos e prejuízos à sociedade, afetando a economia, ecossistemas, estrutura básica e desenvolvimento humano. Por definição, um desastre só acontece quando afeta pessoas. Por exemplo, se uma chuva torrencial, um furacão, tufão ou tempestade ocorrer no oceano em alto mar e por lá não tinha pessoas, não é um desastre, mas se lá havia pessoas que foram atingidas e prejudicadas ou morreram, então aquele fenômeno passa a ser um desastre.

Com a transição do latim para o português, a relação que a palavra tinha com os astros se perdeu, ficando apenas a ideia de “um acontecimento calamitoso que provoca grande prejuízo ou dano”.

Se quisermos ser honestos com nossa língua, o que aconteceu ontem não foi um desastre, mas um crime.

2 – Acidente: O significado etimológico da palavra acidente relaciona-se com a ideia de um acontecimento anormal, de imprevisto e de fatalidade. Este significado vem do senso comum desde os primórdios da humanidade e refere-se aos eventos de natureza geral que se caracterizam pela impossibilidade de controle dos fatores causadores dos acidentes.

Acidente normalmente deveriam ser assim classificados eventos ou acontecimentos inesperados, indesejados que causam danos para as pessoas ou mesmo danos materiais, financeiros.

Portanto, quando acontecem  os falsamente chamados “acidentes”, porque ocorreram em consequência de negligência, falta de precauções, irresponsabilidades e poderiam ser previstos, na verdade não são acidentes, mas crimes. por exemplo, dirigir embriagado e bater, atropelar, matar, …; dar uma faca afiada ou uma arma de fogo para uma criança e ela se ferir a si ou outros, ou matar. isto não são acidentes, mas crimes.

Em “acidentes”, que são realmente acidentes na mais pura concepção da palavra, ninguém pode ser responsabilizado porque o acontecimento era imprevisível ou muito pouco provável.

Para se saber se um acontecimento é acidente ou se é crime, têm que se analisar as causas originantes.

Então o que aconteceu ontem não foi acidente, mas crime.

3 – Crime também vem do latim “crimen” que era considerado uma “ofensa”, uma “acusação” que é um ato que é proibido por uma lei penal, praticado por uma pessoa ou um grupo de pessoas. é um delito ou violação de uma lei, de uma norma penal.

O crime é considerado por uma atitude que causa um dano a um bem que é protegido por lei, como a vida, a propriedade particular ou social. neste caso inclui-se o crime ambiental porque a natureza é o maior bem  sem a qual a vida é impossível.

O crime é punível quando é ilegal. portanto, se um estado (país) ou um conjunto de nações permite por lei que se façam agressões a pessoas ou à natureza e meio ambiente, embora sempre sejam agressões, se estiverem dentro das leis estabelecidas, serão crimes, mas não puníveis.

Então crime punível é aquilo que é praticado ilegalmente, ou proibido por lei penal.

Perdão pelo tamanho do texto. É a indignação e a revolta que fala.

 

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