Dom João Justino: “Reformas pecam por não constituírem projeto consistente”

“Quem vai educar as futuras gerações?”. Este foi um dos questionamentos feitos pelo arcebispo coadjutor de Montes Claros (MG) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e a Educação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom João Justino de Medeiros Silva, ao falar sobre o subsídio “Pensando o Brasil: Educação”, durante coletiva de imprensa realizada hoje, dia 26, no Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida, no Santuário Nacional de Aparecida.

O arcebispo destacou alguns pontos abordados no documento, objeto de estudo aprofundado pelos mais de 300 bispos durante a 55ª Assembleia Geral da CNBB. Para dom Justino, há um processo de desvalorização histórico da figura do professor, inclusive financeira, o que se reflete, por exemplo, na vocação de futuros professores. “As licenciaturas e os cursos de Pedagogia, que ainda têm uma expressão, já não atendem mais a necessidade existente”, afirma ao lembrar que “no passado a primeira profissão almejada pelas crianças era a de ser professor, o que hoje não acontece”.

Segundo o arcebispo, diante dos desafios existentes, o documento procura indicar caminhos para superá-los: “a educação deve ser vista como responsabilidade e compromisso de todos. Não devemos apenas opinar, mas aprofundar a questão da educação, procurar entender todas as variáveis para, então, contribuir como alguém comprometido com o processo de educação”.

Em relação às políticas públicas de educação, a preocupação do episcopado é que elas sejam estáveis e continuadas. “Uma reforma depois de outra traz algum resultado, mas peca exatamente pelo fato de que não se constitui um processo de maior continuidade num projeto consistente”, salienta. Ainda no que se refere a políticas públicas, dom Justino faz um apêndice com referencia às verbas e investimentos. “Precisamos ter estas verbas, mas precisamos discutir o seu uso. Ou seja, não basta melhorar a condição de estrutura das escolas, se não há gestão daquilo que foi investido. Por exemplo, uma escola receber instrumentos de informática, mas não ter técnicos ou professores capacitados para utilizar este equipamento adequadamente”. Para o arcebispo coadjutor, também é preciso investir na atualização constante do professor. “Se fala de uma necessária formação e atualização do professor para o exercício do magistério e entendemos que é preciso que isso seja uma política do estado. Não pode ficar a formação dos professores à deriva, no sentido de que, cada um, depois da sua formação básica como professor, providencie por si. O próprio projeto de educação do país deve incluir esta formação permanente”.

Dom Justino também realça o ponto em que trata da relação família e escola: “É preciso retomar esta parceria que, de algum modo foi rompida. É muito comum a atitude de confiar à escola a educação, mas não haver uma participação da família na educação. É quase uma relação de oposição”. Para ele, sem diálogo entre estas duas instituições, o que se tem é um descrédito da educação. “Para as crianças e adolescentes, se eles não reconhecerem uma boa relação entre seus pais e educadores, temos aí uma ruptura”.

O presidente da Comissão para a Cultura e a Educação ressalta que é vontade dos bispos estimular a comunidade para que estejam mais presentes na educação, sobre tudo na rede oficial, rede pública, pois “o distanciamento gera enfraquecimento no grande projeto de educação que todos devemos estar, de algum modo, vinculados”.

Também participaram da entrevista coletiva os bispos auxiliares do Rio de Janeiro (RJ), dom Joel Portella Amado, que falou sobre “Aparecida: 10 anos depois”, e o de Porto Alegre (RS), dom Leomar Brustolin, que tratou sobre o tema central da 55ª AG: “Iniciação à vida cristã: um processo formativo do discípulo missionário de Jesus Cristo”.

Por Greice Pozzatto
Assessora de Comunicação/Pascom da Diocese de Cruz Alta
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