Dor e saúde

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

A saúde total não significa necessariamente a ausência da dor. Esta pode até ajudar a melhorar a saúde, como um alerta para o maior cuidado. A exercitação ou o treinamento para qualquer tipo de atividade pode causar descômodo ou mesmo dor, buscando-se forma de melhor vida ou a conquista de um objetivo na vida. Jesus veio mostrar-nos que só tem vida quem der a própria pelo bem dos outros, embora isto possa custar-nos sacrifício.

Hoje é muito comum pessoas viverem para a busca de bem estar, fugindo de sacrifício e de compromisso para com o semelhante. Confunde-se muito a felicidade com a busca constante de prazeres imediatos. Esquece-se de que o ideal de amar envolve a pessoa na prática do doar-se. Sempre isso leva a algum tipo de renúncia.

É importante trabalharmos e nos unirmos para a superação do sofrimento, dentro dos parâmetros éticos e do valor da dignidade humana. Para isso acontecer de forma adequada, precisamos encontrar o sentido da vida, até no sofrimento. Este é assumido positivamente, quando enfrentado por um valor maior. Há renúncias e doações em vista de um bem maior. Renuncia-se, por exemplo, acordar mais tarde, para se frequentar a escola e preparar-se para um futuro melhor.

A dor enfrentada por amor, seja a Deus, seja ao próximo, em vista da doação de si para fazer o bem, é meio de fortalecimento do ideal de viver. Não se trata de procurá-la, mas de aceitá-la, quando não evitável, para se fazer o bem. Jesus enfrentou a dor e a fez regeneradora da humanidade.

A saúde plena é buscada em toda a ordem, física, psíquica, cultural, social e espiritual, numa interligação harmoniosa. A carência de uma pode ser compensada pela outra. Há quem tenha boa saúde mas não ama adequadamente e pode até fazer menos o bem do que outra com menos saúde. O amor pode fazer a compensação da falta de melhor saúde.

Na transfiguração do monte Tabor Jesus mostrou aos discípulos o encantamento de sua divindade. Mas, antes de obter a vida gloriosa com Ele, os mesmos deveriam passar pela realidade da vida de doação de si na terra (Cf. Marcos 29, 2-10). O horizonte ou o ideal buscado na vida com Deus sempre deve ser o encantamento para se viver construindo a história terrestre. A saúde deve difundir-se para todos, mas necessariamente com toda a sua plenitude em que não podem faltar a verdade e o encantamento do amor. Quem se doa pela vida digna do próximo, necessariamente ajuda a promoção de sua boa saúde e o verdadeiro cuidado com os mais fragilizados pessoal e socialmente. Jesus passou fazendo o bem a todos, cuidando dos males físicos e espirituais. Acima de tudo quis mostrar o caminho da felicidade total, que é conseguido com o segredo do amor. Desafiou o pessoal que o seguia só por causa de curas e milagres. Ele, mesmo fazendo-os, queria mostrar o ideal maior da vida buscada na realização do projeto do Pai: “Eu vim para que todos tenham vida abundante” (João 10, 10).

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