Educar-se para a solidariedade

Dom Aparecido Donizeti
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre (RS)

Já ouvimos o dito popular que “o pouco, com Deus, é muito; e o muito, sem Deus é pouco”. Essa expressão que, possivelmente, já saiu de nossos lábios nos reporta ao Evangelho que será parte da liturgia do próximo fim de semana onde traz presente a figura de uma mulher que sabe, em sua pobreza, oferecer “tudo que possuía para viver” (cf. Mc 12,44).

É fato que vivemos num mundo materialista, consumista e individualista. Infelizmente, cresce um indiferentismo diante do sofrimento alheio. A própria vida humana tem pouco ou nenhum valor para muitos. Na verdade, a vida entrou na dinâmica da cultura do descartável. Mas é fato também que nos deparamos com muitos gestos generosos de solidariedade para com os mais pobres e sofridos. Seria muito bom que o ser humano espontaneamente desenvolvesse essa sensibilidade para com o outro e soubesse viver a partilha como algo natural. Contudo, não é o que acontece, pois isso supõe famílias que sejam movidas por valores altruístas onde dedicar-se generosamente ao bem do outro predominasse nos relacionamentos cotidianos. A questão é que precisamos combater e superar a globalização da indiferença que toma conta de nossos corações.

A exemplo da viúva, conforme o Evangelho de São Marcos, que se encontrava no Templo e soube dar um testemunho de generosidade, provocando elogios da parte de Jesus, podemos também recordar pessoas, que no nosso tempo, também contagiam positivamente com gestos gratuitos e generosos em favor dos mais necessitados. Dentre tantas pessoas, lembro com carinho de nossa saudosa Dra. Zilda Arns Neumann, médica pediatra e sanitarista brasileira, que faleceu em Porto Príncipe, Haiti, no dia 12 de janeiro de 2010, durante uma palestra sobre seu trabalho na Pastoral da Criança. Seu testemunho de doação e amor para com os mais necessitados deixou uma profunda marca de Deus tanto para a Igreja como para toda a humanidade.Ainda, é significativo lembrar que o exemplo e testemunho será sempre a melhor forma para educar ou educar-se para a solidariedade. Diante disso, outra figura que vem contagiando a muitos é o Papa Francisco que, com simples gestos e palavras, vai mostrando como viver segundo os ensinamentos de Jesus Cristo. Seus gestos de amor e solidariedade para com os mais pobres e fragilizados calam fortemente em muitos corações. Mas, basta também olharmos ao nosso redor para vermos que muitos católicos e não católicos, cristãos e não cristãos estão realizando muitos projetos voltados para a defesa e promoção da vida dos que mais precisam. É louvável ver pessoas preocupadas com os moradores de rua, pessoas dedicadas aos enfermos, aos dependentes químicos, pessoas que assistem e ajudam com amor famílias em situações de vulnerabilidade social e tantos outros grupos que temos e necessitam de atenção especial.

Que possamos, portanto, deixar-nos ser educados por tantos bons exemplos na história em vista da construção de um mundo mais humano, solidário onde todos tenham acesso aos direitos de uma vida digna conforme o projeto de Deus.

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