Ele está no meio de nós

Nesta quinta-feira, celebraremos a solenidade de “Corpus Christi”, ou seja, do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Em nossa Arquidiocese está sendo preparada, através da 84ª Semana Eucarística, nas concentrações e celebrações que ocorrem no Santuário Nacional da Adoração Perpétua, na Matriz de Santana, servida pelos Padres Sacramentinos. Ali, durante o ano todo, diariamente o Santíssimo Sacramento é adorado 24 horas, ecoando em nossa cidade a oração contínua do povo fiel.

Durante esta semana, os vários grupos, pastorais, movimentos se sucedem para rezar e refletir, à luz da Palavra de Deus, sobre alguns caminhos para encontrar Jesus Cristo: na comunidade de fé, na Palavra de Deus, na celebração dos Sacramentos e em especial da Eucaristia, na oração, no serviço aos necessitados, pobres e sofredores, no anúncio alegre da Boa Notícia aos irmãos e irmãs, quando abraçamos as cruzes que a vida coloca sobre nós. Jesus Cristo é o Caminho que nos leva ao Pai! Somos chamados a sempre recomeçar de Cristo, a sempre retomar nossa vida voltando às fontes e aos inícios de nossa jornada cristã. É bom poder expressar neste tempo a “alegria de sermos discípulos do Senhor e de termos sido enviados com o tesouro do Evangelho” (DAp 28).

Nestes dias de preparação, e agora vivenciando a grande solenidade desta quinta-feira, “desejamos que a alegria que recebemos no encontro com Jesus Cristo, a quem reconhecemos como o Filho de Deus encarnado e redentor, chegue a todos os homens e mulheres feridos pelas adversidades; desejamos que a alegria da boa nova do Reino de Deus, de Jesus Cristo vencedor do pecado e da morte, chegue a todos quantos jazem à beira do caminho, pedindo esmola e compaixão.” “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-Lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-Lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (cfr. DAp 29).

A nossa vida é povoada de presenças visíveis ou invisíveis, presenciais ou virtuais, e todas elas nos ajudam na vida cotidiana. Nós encontramos Jesus de diversas formas e em especial, celebrando o seu “memorial”. Eucaristia “é o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo” (DAp 251).

A presença real de Jesus Cristo na Eucaristia nunca foi problema para os primeiros cristãos. Basta refletirmos sobre o capítulo 6º do Evangelho de São João. Porém, com o passar dos anos foi necessário que a Igreja declarasse oficialmente sua fé e, através dos sinais na história, empreendesse celebrações mais populares para manifestar seu modo de crer. A missa e procissão de “Corpus Christi” é um desses sinais. É a nossa “Festa da Unidade”, quando anunciamos que no deserto da vida e em nossa caminhada, o Senhor nos alimenta com o Seu Corpo e Seu Sangue!

Esta solenidade que é realizada na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade é uma festa de preceito, isto é, devemos participar da celebração da Missa neste dia. A procissão pelas vias públicas atende a uma recomendação do Código de Direito Canônico (Cân. 944), que determina ao Bispo diocesano que a providencie, onde for possível, “para testemunhar publicamente a veneração para com a Santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo”. É recomendado que nestas datas, a não ser por causa grave e urgente, não se ausente da diocese o Bispo (Cân. 395, parágrafo 3º).

É costume solenizar e visibilizar o nosso amor por este grande mistério ornamentando as ruas por onde passa a procissão com tapetes coloridos e desenhos de inspiração religiosa. Estes enfeites, de longa data se constituem uma tradição no Brasil, recordando a nossa vida que deve estar bela e preparada para estar com Cristo.

A atual solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XIII. Instituída pelo Papa Urbano IV(1262-1264), através da bula “Transiturus”, de 11 de Agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade, que acontece  no domingo depois de Pentecostes. Urbano IV, antes de ser escolhido Papa, foi Cônego de Liége (Bélgica) e atendia a freira Juliana de Liége, que, em sua vida mística, pedia uma festa da Eucaristia no calendário litúrgico. Esta solenidade entra no calendário litúrgico da Igreja para evidenciar e enfatizar a presença real  do Senhor Jesus no pão e no cálice consagrados. Após a consagração, o pão e o vinho tornam-se Jesus sacramentado.

Um fato que ajudou a criar essa festa foi graças ao milagre de Bolsena (Itália) que durante a celebração da missa do sacerdote Pedro de Praga que, na época, se dirigia em peregrinação a Roma, ao túmulo dos Apóstolos para pedir o dom da fé, pois tinha dúvidas com relação à Eucaristia. Por solicitação do Papa Urbano IV, os sinais dessa revelação particular foram para Orviedo em solene procissão. Esta teria sido a primeira procissão eucarística. Em 11 de  Agosto de 1264, o Papa lançou de Orviedo para o mundo Católico o preceito de uma festa solene em honra ao corpo e sangue do Senhor.

A festa de “Corpus Christi” é um convite para uma meditação sobre o valor e a importância da Eucaristia em nossa vida. A Eucaristia é um dos sete Sacramentos e foi instituída na Última Ceia, quando Jesus disse: “Este é o meu Corpo… Isto é o meu Sangue… fazei isto em memória de mim” (Mt 26,26). Assim, vemos que quem pediu que nós ao longo dos tempos e da história celebrássemos a Eucaristia foi o próprio Cristo.  A Igreja Católica cumpre este mandato até hoje, para perpetuar a presença salvadora de Jesus na história, como deixa bem claro o texto bíblico do capítulo 6 de São João. Todo ele  é um discurso eucarístico de Jesus, que disse “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). A Eucaristia é a  realização da promessa de Jesus, que disse: “Eis que estarei convosco até a consumação dos séculos”(Mt 28).

Santo Tomás de Aquino afirmou “Nenhum outro sacramento é mais salutar do que a Eucaristia. Pois, nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais. A Eucaristia é o memorial perene da paixão de Cristo, o cumprimento perfeito das figuras da antiga aliança”. A celebração da solenidade de Corpus Christi consta de uma Missa, procissão, adoração e bênção com o Santíssimo Sacramento. Esta procissão com o Santíssimo nos recorda a caminhada do povo de Deus, como um povo peregrino neste mundo. No Antigo Testamento o povo foi alimentado pelo Maná, no deserto. Hoje, é alimentado com o próprio corpo e sangue de Cristo. Por isso, também um sinal concreto de nossa Arquidiocese nesse dia é a partilha dos alimentos que todos levam para a procissão, para serem depois repartidos com as diversas entidades que trabalham com os necessitados.

A vida cristã consiste em viver  em Jesus Cristo, com Jesus Cristo e por Jesus Cristo neste mundo, ou seja, fazer da vida uma Eucaristia para os irmãos, como fez o Senhor Jesus.  Que o Senhor Jesus, visibilizado pelo dom celestial da Eucaristia, abençoe nossas famílias bem como toda a Nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Dom Orani João Tempesta

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