Escandalizar

Paulo, nascido há dois mil anos, usa a linguagem de Jesus contra o escândalo, que leva pessoas a serem de estorvo ou tropeço para os outros na caminhada: “Não escandalizeis a ninguém, nem judeus, nem gregos, nem a Igreja de Deus” (1 Cor 10, 32). O próprio Mestre já falara: “Melhor seria para ele se lhe pendurassem ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado ao mar do que escandalizar um só desses pequeninos” (Lc 17, 2).

A base do escândalo está no orgulho pessoal. Este leva as pessoas e organizações a se acharem parâmetro ou regra de comportamento, não se importando com o mal que possam causar aos outros. Quem pensa ser superior, inclusive aos ditames da ética e da moral, não se compromete em viver e respeitar valores inerentes à dignidade da vida, da justiça, da família, do sexo e dos indefesos. Seu parâmetro é o da moda ou da atualidade, baseando-se no desejo de maiorias muitas vezes manipuladas por certa mídia materialista e auto-suficiência intelectual.

Jesus não baseia a ética na lei ou no desejo de maiorias e sim no amor provindo da justiça misericordiosa de Deus. O parâmetro do amor é a generosidade que faz cada um realizar o melhor de si para beneficiar o máximo o semelhante, mas com meios e métodos respeitadores do bem. Não se pode usar meio intrinsecamente mau para se obter um bem. Em outras palavras: o fim não justifica os meios. Nesta perspectiva, o bem é buscado através do benefício assumido como instrumento de ajuda à pessoa e à sociedade. Para o Filho de Deus, não basta não matar, não cometer adultério, não mentir, não vingar-se, etc. É preciso ser mais generoso (conferir em Mt 5, 21-48).

Muitos não causam o mal. Porém, não fazem o bem. O pecado da omissão é terrível e leva a tantos a não ajudarem a construir família e sociedade melhores. Quantos poderiam usar dos próprios carismas e bens para ajudarem a erradicar a fome, a injustiça, a exclusão social, a ignorância, a má política, a arbitrariedade, a falta de colaboração…! A própria omissão pode chegar a ser verdadeiro escândalo, impedindo o crescimento do bem das pessoas e comunidades!

O Divino Mestre nos apresenta o desafio da busca da perfeição, tendo Deus por modelo da mesma (conferir em Mt 5, 48). Jamais nos aproximaremos da perfeição do Criador. Mas, em relação a nós, a perfeição é possível no empenho diuturno para irmos na direção da luz de Deus. A vida nos vale justamente para tudo realizarmos na direção da prática do bem. Este, porém, deve coincidir com a fonte do bem – o próprio Deus. Se o bem for considerado e buscado apenas ou acima de tudo na perspectiva do hedonismo, do conforto imediato e do materialismo, não chegaremos ao objetivo da existência. Não levaremos dinheiro, fama e prazeres sensíveis para a eternidade. Tudo isso pode afinar-se com o bem quando ele não for pedra de tropeço para nós e os outros. Ao contrário, usados na medida do bem de Deus, pode nos ajudar a realizar a promoção da dignidade de todos. Aí superaremos a pedra de tropeço para nós e o semelhante.

Dom José Alberto Moura

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