Escutar, condição para governar

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

A tradição bíblica apresenta o rei Salomão como sábio. No terceiro capítulo do lº livro de Reis se encontra a narrativa de como o Senhor lhe concedeu o dom da sabedoria. Conta o escritor sagrado que o Senhor apareceu ao rei em sonho e lhe disse: “Pede o que te devo dar”. Depois de considerar a benevolência de Deus para com Davi, seu pai, e para consigo mesmo ao constituí-lo sucessor de Davi, Salomão assim formula seu pedido: “Dá, pois, a teu servo um coração que escuta para governar teu povo e para discernir entre o bem e o mal, pois quem poderia governar o teu povo, que é tão numeroso?” O pedido de Salomão agradou a Deus que lhe disse: “Porque foi este o teu pedido […] dou-te um coração inteligente, como ninguém teve antes de ti e ninguém terá depois de ti”.

Esse relato bíblico é de grande beleza e ensinamento. Nele se compreende a sabedoria como capacidade de escuta. O sábio é, antes de tudo, alguém que tem ouvidos afinados para escutar as pessoas e discernir o que estão a dizer. A sabedoria supõe, dessa forma, o exigente exercício de atentamente escutar o dito e o não dito. Para quem tem responsabilidade de governar ou de gerir, a escuta é um aliado de máxima importância. Pode-se ter recursos e dispositivos técnicos para definir metas e estratégias. No entanto, sem a escuta das pessoas, de suas demandas, de seus medos e de sua história, corre-se o risco de atropelar procedimentos e emperrar processos.

A escuta produz a palavra certa para o momento certo. Essa palavra que descortina rumos não vem facilmente. Ela é literalmente forjada no processo da escuta. É cara, seja por sua importância seja pelo seu valor. E ela é cortante. Faz emergir a verdade. Exemplar é o julgamento realizado por Salomão, relatado logo a seguir no mesmo terceiro capítulo do 1º livro de Reis. Ele escuta a narrativa das duas mulheres que disputam a maternidade de uma criança viva. A outra criança estava morta. O rei pediu uma espada e ordenou que a criança viva fosse cortada ao meio, e dada a cada mãe a metade. A mãe da criança viva comoveu-se em suas entranhas e pediu ao rei que desse seu filho vivo à outra mulher. Essa outra, porém, dizia: “Não seja meu nem teu, cortai-o”. E o rei ordenou que dessem a criança à primeira mulher, pois era ela a verdadeira mãe. Foi detendo-se diante daquelas mulheres e escutando suas histórias que o rei encontrou a palavra para provocar a emersão da verdade. Esse processo é custoso. Pede a decantação das narrativas para identificar a fresta por onde poderá surgir a luz.

Quem governa não pode prescindir de se pôr à escuta. E é fundamental escutar o povo, as ruas, os críticos, o outro lado, o contraditório. O autoritarismo é resultado da surdez que autoconvence como se eu fosse o único portador da verdade. Falem os outros, mas se faça o que eu penso e decido. E quanto menos falarem, quanto menos pensarem, quanto menos indagarem será melhor, raciocinam os que não querem escutar. Por isso os saberes que instigam a pesquisa, a pergunta, a pluralidade, tornam-se saberes perigosos e desprezíveis. Há também ouvidos que não suportam a diferença, a diversidade, outros modos de falar, de cantar, de narrar.

Governar é a arte de reger diálogos e de estimular a participação de muitos, senão de todos. É o exercício de valorizar o debate, de sustentar o desejo de dias mais felizes, mais aprazíveis, com trabalho e festa, com garra e com ternura, com justiça e paz. Sem qualquer forma de violência. Sem apelar ao “cale-se”, pois escutar é fundamental para governar.

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