Espiritualidade litúrgica

Dom Fernando Arêas Rifan*
*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

Estou em Guayaquil, Equador, participando como conferencista do II Encontro de Formação Católica sobre Espiritualidade, Doutrina Social da Igreja (DSI), Liturgia e Família. Dom Luis Cabrera, Arcebispo de Guayaquil, tratou sobre a DSI  como meio de Evangelização.

Na minha palestra, falei sobre a espiritualidade mariana, mostrando Maria como modelo de discípula de Jesus, sobretudo na virtude básica do cristianismo, a humildade, que a uniu ao sacrifício de Cristo. Ela, que se proclamou “a escrava do Senhor”, “tornou-se agradável a Deus pela sua virgindade, mas tornou-se Mãe de Deus pela sua humildade”, no dizer de São Bernardo. Santo Agostinho comenta: “Se me perguntas qual é a primeira virtude cristã, eu respondo: a humildade; a segunda, a humildade, a terceira, a humildade”.

E como devia explanar sobre a espiritualidade litúrgica, expliquei que a virtude que mais se sobressai nela é justamente a humildade. Pois a parte central da Liturgia é o sacrifício, que vem a ser a expressão ritual do reconhecimento da supremacia divina sobre nós, e, diante dela, do nosso nada. Nisso consiste a teologia do sacrifício, base de qualquer religião. Interessante que a Igreja venera São Miguel arcanjo, o que resistiu à soberba de Lúcifer, que queria ser igual a Deus, com o brado “quem como Deus” (em hebraico: Mi Cha El, daí o seu nome: Michael ou Miguel), é, por isso mesmo, o chefe da liturgia celeste, do culto perene prestado à onipotência divina na eternidade.

São João Maria Vianney, o nosso patrono e de todos os padres, ensinava três atitudes corretas que devemos ter durante o santo sacrifício da Missa, atitudes que denotam e inspiram a humildade: a do publicano, que batia no peito pedindo perdão, no ato penitencial; a do Bom Ladrão, que arrependido pediu a Jesus que se lembrasse dele no Reino dos Céus, durante toda a Missa; e a do centurião, que se disse indigno de receber Jesus em sua casa, na Comunhão.

Por isso, diante da seriedade que é o sacrifício eucarístico, exclamava o então Cardeal Joseph Ratzinger, depois Bento XVI: “A Liturgia não é um show, um espetáculo que necessite diretores geniais e atores talentosos. A liturgia não vive de surpresas simpáticas, de invenções para cativar, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e seu efémero, mas o mistério do Sagrado”.

Como tema de outra minha conferência era a Tradição, expliquei que a tradição não significa nem o passado nem o moderno, mas a soma do passado com o presente que se lhe assemelha, lembrando a afirmação de São João Paulo II: “Não é o antigo como tal nem o novo em si mesmo que correspondem ao conceito exato da Tradição na vida da Igreja. Este conceito designa, realmente, a fidelidade durável da Igreja à verdade recebida de Deus, através dos acontecimentos mutáveis da história. A Igreja, como o pai de família do Evangelho, tira com sabedoria ‘do seu tesouro o novo e o velho” (cf. Mt 13, 52) … E esta obra delicada de discernimento, a Igreja a cumpre pelo seu Magistério autêntico” (Carta 4/8/1988).

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