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“O vosso corpo é templo do Espírito Santo” (1Cor 6,19)

Resumo: Proponho-me a refletir sobre alguns aspectos da sexualidade humana a partir do testemunho Paulino. A carne, sarx, assumida na encarnação, além de ser a exaltação do humano é, também, sua possibilidade de autotranscendência na força do Espírito Santo. É nesta perspectiva que analiso a contribuição de Paulo para a sexualidade hoje.

Neste Ano Paulino, a literatura sobre o testemunho do Apóstolo é abundante. Pediram-me este artigo sobre ele a partir da minha sensibilidade. Aproveito, então, para enfrentar o tema da sexualidade. Um tema controvertido e às vezes pouco explorado. Desde logo confesso que não sou um exegeta especialista em Paulo. Sou apenas um padre que busca compreender, entre as linhas dos ensinamentos deste grande missionário, a revelação sempre desafiadora da presença de Jesus Cristo na carne e nos ossos de cada ser humano, sobretudo da minha própria história de vida.

Com o título deste artigo, proponho-me a fazer um breve itinerário pela sexualidade humana, deixando ressoar alguns ensinamentos paulinos. Contudo, foi o Evangelho de João que disse: “O Verbo se fez homem” (Jo 1,14), quer dizer, carne. A carne tem tudo a ver com nossa forma de ser no mundo, com nossas relações mais intensas e mais veladas. Um dia, Deus também quis se fazer sarx (cf. Hb 1,1-14) para comunicar a si mesmo, depois de todas as formas que experimentou de comunicação. Agora, nos últimos tempos, é Jesus esta carne. Assim, o próprio Deus se associou radicalmente à nossa humanidade naquilo que ela tem de mais externo e material, mais transparente e secreto: sensibilidade e turbulências do corpo, seus profundos desejos e frustrações, seus constantes prazeres e desprazeres, suas alegrias e dores (cf. Rm 7,14s). Esta realidade paradoxal é uma herança da cultura judaico-semítica e helenístico-romana que perpassou toda a compreensão humana da revelação até nossos dias na literatura paulina.

Nesta significação da nossa argumentação, começo dizendo que a virtude em Paulo tem algo de elevado, santo e divino; enquanto o prazer é interpretado como baixo, fraco, demoníaco e efêmero. Em Gálatas 5,19-23 temos esta leitura: “As obras da carne estão à vista. São estas: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúmes, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. Por seu lado, é este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio. Contra tais coisas não há lei”. O texto é denso e revela algo substancioso da nossa realidade cristã: no corpo, o cristão é chamado a transformar-se, direi até, a transcender-se. Um corpo que deve ser assumido com todos os seus apelos, sem “fuga mundi” como no passado, mas na perspectiva do Concílio de Calcedônia sobre a unidade do humano e divino em Jesus Cristo. Nele não há divisão nem mistura, nem menos ou mais. Tudo é completo. Ora, se nosso corpo é templo da morada do Espírito, e o Espírito vem do Pai por mediação de Jesus (cf. Jo 14,16s), então, não pode haver a dualidade corpo e alma, carne e espírito, mas um todo que se expressa na totalidade do nosso modo de ser e agir como pessoas. Assim sendo, as obras da carne e os frutos do Espírito estão no mesmo ser. O que Paulo nos ajuda a discernir é que precisamos ter critérios de fé para escolher na liberdade. Aqui o tema da encarnação resgata sua força, pois a transformação, ou a configuração a Jesus Cristo, não pode ser isenta desta passagem. Às vezes sentida na carne, naquele espinho que penetra fundo até as profundezas no ser para depois libertar e santificar. Contudo, o que me intriga em Paulo, às vezes, é quando ele afirma que “se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, e o Espírito é vida por causa da justiça” (Rm 8,10). O que significa isto? O que é corpo aqui? Parece-me que corpo não é a matéria, mas as ações que negam a nova realidade do cristão, ou seja, seu novo nascimento em Cristo. Pois “é Cristo ressuscitado que dá vida aos corpos mortais” (Rm 8,11). Nascer de novo seria, então, o enigma da sexualidade em Paulo?

Por outro lado, sabemos que Jesus não pecou, mas experimentou a morte. Desceu à mansão dos mortos para trazer todos à nova vida. Portanto, das obras da carne até os frutos do Espírito não seria também este processo de morte e vida? O próprio Paulo não passou por isto quando, de perseguidor implacável, tombou diante da luz para descobrir os frutos do Espírito? Para ser templo do Espírito é preciso ser pedra, massa, alicerce até tornar-se unidade da matéria e forma ideal planejada. A sexualidade humana é carne em permanente construção. É um modo de ser, o todo físico, social, político e religioso; isto significa que não dá para compreender o pensamento em Gálatas 5 sem aceitar que passamos pelo crisol que nos molda até a morte. Sexualidade paulina é assim a dinâmica tensão entre incertezas e serenidade, amor e ódio, buscas e desencontros.

Numa sociedade de carne, do consumo narcisista como a nossa, considerar Paulo como o ícone do discípulo de Jesus Cristo fragilizado na carne e fortalecido no Espírito é um ganho que aproxima muito mais do desejo de santidade (cf. Rm 7,21). Ele mesmo nos diz: “Tudo me é permitido, mas eu não me farei escravo de nada” (1 Cor 6,12). Ele se refere àquela lista das obras da carne. Tudo é possível, mas é muito melhor ser livre. Há uma força interna em Paulo que o empurra para o pecado, uma lei que luta contra a razão (cf. Rm 7,14-24), mas ele se coloca no dinamismo da construção que somente o Espírito realiza, “pois fomos comprados por um alto preço” (1 Cor 6, 20); o preço de uma morte cruenta, mas revelada como salvação. A sexualidade assim assumida não é negação do humano, como pareceu num tempo, não obstante suas reais ambigüidades, mas autonomia diante de tantos apelos modernos que nos encantam e seduzem. Fugir de si mesmo, com medo do que possa acontecer, não é uma sexualidade relacional e prazerosa, e sim, de medos e castrações.

Pe. João Mendonça, sdb

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