Expulsão da comunidade

Dom José Alberto Moura, CSS

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros – MG

A visão unilateral não dá margem à pessoa para enxergar outros e até maiores valores que não se enquadram dentro de seus limites fechados. A abertura de visão pode muito ser ajudada através da humildade e da aceitação dos valores dos outros. Ver a partir do outro enriquece e dá uma experiência ímpar a todos. Num mundo de tanta pluralidade é preciso promover a visão mais global da vida. Sem a aceitação do diferente nos empobrecemos sobremaneira. Os fundamentalismos, até religiosos, os autoritarismos e a ignorância de visão causam muitas rivalidades e lutas desgastantes e inúteis, para não dizermos  altamente ignorantes.

Jesus, com sua sabedoria e prática de amor sem limites, quis ensinar de modo muito simples e humano, como convivermos fazendo o bem, mesmo tendo que mexer com a ignorância e autoritarismos de determinados grupos e pessoas. Abre a visão para as pessoas perceberem que o ritualismo e a religiosidade sobremaneira formalista não têm consistência de ajudar realmente quem precisa de ajuda. Afirmou categoricamente para lideranças judias que o sábado foi feito para o homem e não vice-versa. O cuidado com a vida e o benefício de quem sofre vale muito mais diante de Deus do que simplesmente não fazer nada em dia santo, como era o sábado para os judeus. As lideranças rejeitaram Jesus porque ele curou um cego num desses dias (Cf. João 9,1-41). Mais, expulsaram  da comunidade o homem curado da cegueira. É assim ainda: certas lideranças não querem aceitar a verdade e o bem objetivo. Não raro querem destruir a possibilidade de articulação verdadeiramente ética e baseada na justiça para encobrirem suas intenções e seus interesses contrários aos valores inerentes à vida, ao matrimônio, à política maiúscula e ao real bem comum.

A luz de Deus, com seu esplendoroso valor de elevação da dignidade humana, muitas vezes é rejeitada por pessoas de visão materialista e profundamente egoísta, com a desculpa de que não são obrigados a aceitar valores religiosos. Muitas vezes querem rejeitar valores éticos, inerentes à vida e à dignidade humana, com a desculpa de que são valores religiosos, como o aborto e outros, confundindo até certos direitos com equiparação com vocações próprias do casamento.

Com certa freqüência essas pessoas e esses pensamentos defendidos por tais grupos se enquadram no que o próprio Jesus afirma: “Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas, como dizeis ‘nós vemos’, o vosso pecado permanece” (João 9,41). Precisamos de ouvir mais e debater valores, propostas, direitos, deveres e verdades com pessoas e grupos isentos de interesses na confecção de leis e emissão de julgamentos precipuamente baseados em seus poderes jurídicos e políticos. A verdade e os julgamentos não podem ser concluídos pela força da lei enquadrada dentro de si mesma e por interesses lobistas, condicionados pelas visões unilaterais de pessoas e grupos. Precisamos separar verdade, ética e moral de posições ou determinações simplesmente baseadas em interpretações condicionadas por visões legalistas ou simplesmente estatísticas. A verdade não depende do número ou do interesse dos que a proferem.

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