Fraternidade e Políticas Públicas

Dom Edney Gouvêa Mattoso
Bispo de Nova Friburgo (RJ)

Caros amigos, o itinerário quaresmal conduz-nos ao encontro com Jesus Cristo, promovendo em nosso interior um processo de autoconhecimento e amadurecimento da fé, que se concretiza na realização das boas obras (cf. Tg 2,26) e no serviço misericordioso aos irmãos e irmãs.

Todos os anos, a Igreja no Brasil busca contribuir para este processo de conversão pessoal e sociocomunitária por meio da Campanha da Fraternidade (CF), buscando aprofundar a compreensão de que a luz da fé deve iluminar os ambientes escuros e frios de nossa sociedade. Em 2019, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos oferece o tema: “Fraternidade e Políticas Públicas”. A partir desta reflexão somos estimulados a assumir nosso lugar na fiscalização e solução dos muitos problemas que afetam a dignidade e direitos dos cidadãos.

Atraídos pelo Cristo e fortalecidos pelos exercícios quaresmais, tornamo-nos anunciadores da presença salvífica de Deus em meio aos homens através do serviço que transforma e constrói novas relações, possibilitando a participação de todos na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

O Papa Francisco, em mensagem à Igreja no Brasil, reforça que a Campanha da Fraternidade serve para inspirar, iluminar e integrar as práticas quaresmais como componentes de um caminho pessoal e comunitário em direção à Páscoa de Cristo. E esclarece que “muito embora aquilo que se entende por política pública seja primordialmente uma responsabilidade do Estado cuja finalidade é garantir o bem comum dos cidadãos, todas as pessoas e instituições devem se sentir parceiros nas iniciativas e ações que promovam ‘o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição’” (11 fev. 2019).

Para que nossa prática social seja capaz de transformar a triste realidade das políticas públicas, fechadas nos interesses financeiros e midiáticos, ela deve ser sustentada pela consciência da dignidade humana e da recíproca responsabilidade pelo bem dos irmãos.

“Esta consciência impele-nos a uma práxis responsável e responsabilizadora, tendo em vista um bem que é indivisivelmente pessoal e comum. Apenas quando o homem se concebe, não como um mundo fechado em si mesmo, mas como alguém que, por sua natureza, está ligado a todos os outros, originariamente sentidos como irmãos, é possível uma prática social solidária, orientada para o bem comum” (Mensagem para o Dia Mundial do Doente, 25 nov. 2018).

A criação de estruturas legislativas, econômicas e médicas deve buscar sanar os problemas que surgem, evitando o malefício da corrupção, antepondo o bem comum aos interesses privados e conjugando a busca da justiça com a misericórdia e a reconciliação (cf. Papa Francisco, Mensagem ao Congresso organizado pela CAL-CELAM, 01 dez. 2017).

Assim, por uma participação mais ativa e consciente do cristão na sociedade, o amor de Deus se concretiza na proximidade de seu Reino. Que esta Quaresma seja vivida de modo que, tomados pelo seguimento de Jesus, e conscientes de que, por virtude de nossa vocação batismal, somos chamados à vida de santidade, e atuando como do fermento na massa, seja possível construir uma cidade temporal que esteja de acordo com o projeto de Deus (cf. Documento de Aparecida, 505).

Que “o divino Espírito acenda em nossa Igreja a caridade sincera e o amor fraterno; a honestidade e o direito resplandeçam em nossa sociedade e sejamos verdadeiros cidadãos do “novo céu e da nova terra” (Oração da CF 2019).

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