Igreja e ano eleitoral

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte

 

São graves os prejuízos quando se elegem candidatos sem as qualidades necessárias para decidir sobre os rumos de uma nação. Nessa direção, a Igreja quer contribuir com reflexões e debates de modo a favorecer a qualificação das escolhas. Trata-se de um processo complexo por articular muitos dados, elementos, interesses, e o emocional, que também fecunda as opções políticas e o alinhamento em torno de nomes.

No quadro da Babel ideológico-partidária – com a proliferação de partidos, que acaba por prejudicar o processo político e confundir o cidadão – a Igreja Católica compreende que sua contribuição ético-moral é indispensável. É missão da Igreja atuar na formação da cidadania, nos exercícios das diversas análises e na busca dos entendimentos, para que as escolhas sejam feitas com qualidade. Assim, a Igreja Católica oferece rica e qualificada contribuição para que a liberdade de escolha de cada cidadão seja norteada por parâmetros éticos.

É preciso contribuir com a evolução da sociedade no aprofundamento da maturidade política, pois o ideológico-partidário, nas eleições, não pode se equiparar à paixão esportiva, como costuma ocorrer. Ora, as consequências para um time, que ganha hoje e perde amanhã, não têm a mesma força determinante da eleição de pessoas para ocupar posições estratégicas, durante quatro anos de mandato – e a possibilidade da reeleição – com prerrogativas e tomada de decisões que definem o futuro da nação.

Por isso, a Igreja vem insistindo na urgência da reforma política que, para ser realizada, requer um parlamento de maior envergadura político-antropológica. Enquanto isso não acontece, paga-se um alto preço pelas consequências desse adiamento e dos remendos na legislação. As inúmeras leis aprovadas, isoladamente, não conseguem tocar as raízes dos problemas e impedem o florescer de uma nova cultura política no tecido da sociedade brasileira.

Pelos sacrifícios que lhe são impostos e pela falta de respostas adequadas, a sociedade brasileira tem experiência histórica para avaliar o quanto a escolha equivocada de determinados nomes pesa, atrasa e impede o progresso. Apenas o ideológico-partidário não é suficiente no processo cidadão de escolha.

Um grande investimento deve configurar o momento primeiro, que envolve os valores éticos, com força de transformação, fundamentais na fase da política partidária que virá em seguida. Sem a ética, resvala-se em várias direções. Cria-se uma sequência de descompassos e de escolhas que interferem seriamente nos processos. O bem comum é comprometido por atitudes manipuladoras sobre o erário e que demonstram falta de competência com relação aos projetos e programas.

Nesse contexto, é notória a falta de preparo e de vontade política na busca de respostas para as demandas por transformações. A situação é ainda mais grave quando se trata da urgente construção de uma nova ordem social, que deve ser a de superar a vergonhosa miséria e a exclusão que oprime e humilha os mais pobres. A Igreja não pode deixar de assumir esta responsabilidade, certamente em parceria com outros segmentos da sociedade comprometidos com a construção de uma política limpa, que seja instrumento para articular dinâmicas de justiça e solidariedade.

Entrar no mundo da política, como Igreja, para organizar bancadas em vista da defesa de interesses cartoriais próprios não tem sentido. Acontece, mas se trata de um desvirtuamento, e a política é acima de tudo uma prática que deve visar ao bem comum. Assim, a exigência primordial é escolher uma representação que possua as prerrogativas morais necessárias, pois apenas a conquista de um mandato não é garantia requerida de autoridade política.  É necessário avaliar o político pelo exercício honesto e competente do poder a ele conferido, especialmente pela atenção dedicada às necessidades do povo.

Lamentavelmente, há um epidêmico comprometimento da autoridade política, quando a prática mais comum é atender determinados grupos e segmentos da sociedade. Um grave exemplo são os prejuízos causados pela depredação do meio ambiente que ocorre, particularmente em Minas Gerais, a partir de medidas ofensivas ao bom senso, à moral, a patrimônios intocáveis. E a luta pela moralização desse setor, e de outros mais, também é tarefa de igrejas e segmentos educativos.

À luz do Evangelho, sejam compartilhadas ideias e reflexões que venham a contribuir para escolhas conscientes. Assim, os segmentos da Igreja podem e devem promover diálogos esclarecedores, em espaços apropriados, a exemplo dos centros pastorais. Obviamente, jamais, se deve admitir comitês de propaganda eleitoral nos espaços da Igreja, que é de todos. Vale lembrar, que não se pode usar, forma alguma, a liturgia da Igreja e os seus espaços próprios para a propaganda política.

O momento atual é o de convocar todos a participarem deste processo político, honrando sua cidadania e contribuindo com escolhas sérias, capazes de ajudar a sociedade a reencontrar os rumos para a construção do bem comum. Seja este o momento de edificar um tempo novo, capaz de reacender a chama da esperança, ancorada em valores que permitam ao povo retomar o seu caminho.

 

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