A PEC 241 peca

Dom Severino Clasen
Bispo de Caçador

 

Os bispos do Brasil, entregaram para a Igreja nesse ano de 2016, um documento referente aos Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5,13-14).

Este documento foi elaborado com a participação de teólogos e teólogas leigos e leigas e aprovado pelos bispos do Brasil. Qual é a motivação de fundo desse documento? Enfatizar a índole secular que caracteriza seu ser e agir, como propõe o Concilio Vaticano II: “O caráter secular caracteriza os leigos(...) A vocação própria dos leigos é administrar e ordenar as coisas temporais, em busca do Reino de Deus. Vivem, pois, no mundo, isto é, em todas as profissões e trabalhos, nas condições comuns da vida familiar e social, que constituem a trama da existência. São aí chamados por Deus, como leigos, a viver segundo o espírito do Evangelho, como fermento de santificação no seio do mundo, brilhando em sua própria vida pelo testemunho da fé, da esperança e do amor, de maneira a manifestar Cristo a todos os homens. Compete-lhes, pois, de modo especial, iluminar e organizar as coisas temporais e a que estão vinculados, para que elas se orientem por Cristo e se desenvolvam em louvor do Criador e do Redentor”. (Doc. 105,n.5).

O Grande desafio é superar as dicotomias Igreja x Sociedade, fé x mundo, sacramentos x missão...

A cultura religiosa, tendenciosamente, incorpora nos fiéis laços pertencentes que acumulam comportamentos, costumes, práticas e vivências que muitas vezes mais promovem cismas entre fé e sociedade do que uma manifestação autêntica da conversão anunciada pelo Evangelho. O Papa Francisco tem alertado sobre o perigo do fechamento de uma Igreja auto referencial(...), uma Igreja em si mesma, e propõe uma Igreja “em saída”.

Estamos vivendo no Brasil um momento histórico oportuno para colocar em prática nossa consciência de ser “sal na terra e luz no mundo”. Vivemos num momento de inquietação em todas as camadas sociais da nossa Pátria. Até agora se manifestava mais forte a crise política, no legislativo, executivo e tributário, agora aparecem também graves problemas relacionados ao judiciário, sem precedentes em nossa pátria. Uma crise provocada pela busca desenfreada do poder e do domínio econômico, fruto de um neoliberalismo selvagem que assola todas as esferas da nossa amada pátria. A imoralidade, a destruição da ética, o desrespeito à vida humana pisoteada pela corrupção, estão destruindo a jovem democracia, silenciando a massa pensante, os movimentos sociais, os trabalhadores comuns e os filhos e filhas da Pátria amada. Diz o documento sobre os cristãos leigos e leigas: “Fiel à orientação conciliar sobre os leigos, o Beato Paulo VI lembra: “A sua primeira e imediata tarefa não é a instituição e o desenvolvimento da comunidade eclesial – esse é o papel específico dos pastores – mas sim (...) o vasto e complicado mundo da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos mass mídia e, ainda, outras realidades abertas à evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento. (Doc.105,n.6).

Chegou o momento para abrirmos outras páginas do jornalismo, para saber o que de fato está acontecendo no Brasil. Nos acostumamos às notícias rotineiras veiculadas por grupos poderosos que tem habilidade de navegar as consciências coletivas para onde lhes interessa. Assim vivemos em tempos de “golpe de estado”, provocado pela quebra da ética, destruição de valores, da família, da religião e da verdadeira tradição que trouxe a cultura, a arte, a música, a fé, a educação e os estabelecimentos de saúde de nossa Pátria.

Está aqui o grande pecado que a PEC 241 vem ameaçando a nossa Pátria, porque congela o que há de mais sagrado e intocável para o crescimento e a liberdade de uma nação, a Educação e a Saúde. Destaco apenas essas duas colunas que constroem uma nação livre e próspera, sem ignorar outros valores em perigo como as conquistas sociais, a democracia e outros. É um projeto administrativo que, conforme lembra o Evangelho de Lucas, na passagem sobre o fariseu e o cobrador de impostos (Lc 18,9-14), estamos no caminho do domínio dos fariseus que se julgam os poderosos, merecedores de mais poder e dinheiro, que escondem os próprios roubos, e olham com desprezo para os pobres e indefesos, como culpados e pecadores, condenando-os a pagarem a conta. A 241 é uma PEC elaborada por uma elite que ignora os filhos da Pátria e privilegia a classe dominante; é um escândalo, um grande pecado, porque penaliza a vida da população pobre, trabalhadora e humilde de nossa nação.

Que a Palavra de Deus nos ensine a sermos corajosos; nos desacomode e nos faça buscar nas pastorais, nas organizações populares e movimentos sociais e grupos eclesiais, o reto pensar, sentir, edificar, construir a justiça e colocar nos serviços públicos homens e mulheres que governem com a sabedoria da graça e da misericórdia divinas e não com o ódio, a vingança e a prepotência humana. “Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18, 14).