Lições de Suzano

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

A recente tragédia na escola em Suzano trata-se de uma barbárie e de uma contradição. Como uma escola, local de aprendizado, pôde se tornar palco de tamanha crueldade? Não há como não se indignar. Mais uma vez as feridas de nosso país foram expostas ao mundo. Muitas lições podem ser apreendidas desse terrível acontecimento. Ninguém deveria deixar de se perguntar: o que este fato nos ensina?

Três lições, entre tantas outras, podem ser destacadas. A necessidade de acompanhar as crianças, os adolescentes e os jovens em seu processo de crescimento é a primeira lição. Todo e qualquer ser humano tem riscos de se inclinar para o mal. A educação familiar é um dos mais importantes recursos para abrir caminhos de boa conduta. Em muitas situações, o descaso no acompanhamento e a falta de pessoas de referência acabam por potencializar alguma tendência à maldade e, às vezes, ao crime. Quem acompanha saberá, inclusive, a hora de pedir ajuda especializada.

A segunda lição está associada ao uso excessivo de recursos virtuais. A internet é um maravilhoso meio de comunicação e de acesso ao conhecimento. Lamentavelmente, é, também, um espaço onde se semeiam o ódio, a violência e a intolerância. Há jogos extremamente violentos. Não teriam esses jogos percentual de estímulo à violência? Uma criança está apta a aprender a manusear uma arma como também a ler um livro, a ser prisioneira dos videogames ou a tocar um instrumento musical.

Como adultos, o que oferecemos às crianças? O que colocamos em suas mãos? Todos devemos e precisamos atuar em prol de uma cultura de paz. Um grau necessário de agressividade, associada à proatividade e à superação de medos, pode ser trabalhado por meio de jogos e outras atividades físicas. A dimensão lúdica se associa facilmente à dimensão artística. Por isso, há necessidade de políticas públicas que estimulem adolescentes e jovens a cuidar da mente e do corpo. Vale para nossos dias o ditado latino “mente sã em corpo são”. É urgente libertar as crianças, os adolescentes e os jovens das prisões do mundo virtual. O mundo da computação tende a retirar as pessoas de espaços vitais que promovem o gosto do encontro, a beleza da solidariedade e o sonho de um mundo de paz.

Ao mesmo tempo, uma terceira lição indica que todo discurso que prega a intolerância fere a dignidade das pessoas. Quando a Igreja realiza, por exemplo, a Campanha da Fraternidade, entre seus objetivos está em promover o encontro entre as pessoas, a valorização da vida e das relações interpessoais, a convivência na harmonia e no respeito. A intolerância e o ódio não podem produzir a paz e a fraternidade. Uma pessoa movida pelo ódio tende a ser destruidora. E quando o discurso intolerante é estimulado e as pessoas cedem e passam às vias de fato, a sociedade caminha para o rompimento dos laços sociais. Nenhum cristão, por fidelidade a Jesus Cristo, pode compactuar com discursos que semeiam a vingança e o ódio.

Finalmente, lembre-se de que a vida saudável pede esporte, ar livre, pé no chão, joelho ralado, banho de chuva, jogos entre amigos, rodas de conversa, visitas…

 

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