Memórias de 12 de outubro

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Na véspera do dia de N. Sra. Aparecida não consegui chegar à novena como programado. Acidente na Via Dutra e o transito parado deixou-me 12 horas na estrada. O reitor do Santuário Nacional presidiu o último dia da novena, a quem agradeço. Aqui no Rio celebramos solenemente a padroeira juntamente com os 87 anos da inauguração da imagem do Cristo Redentor.

Nessa data o povo brasileiro celebrou jubilosamente a Solenidade de Maria a Senhora da Conceição Aparecida, nossa Mãe morena, Rainha e Padroeira, Senhora de todas as raças línguas e culturas. Ela é a Mãe do nosso Povo, fiel companheira do povo brasileiro.  De coração agradecido cumprimento os fiéis peregrinos que marcharam ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida para prestar homenagem à Padroeira do Brasil.

Aparecida é o lugar do encontro, da fraternidade, da experiencia de fé e devoção do nosso povo, é o maior santuário dedicado à Virgem Maria no Brasil.  A Senhora “Aparecida”, como o próprio nome diz, é a Patrona de todo o Brasil. O dia 12 de outubro é feriado nacional. A história deste Santuário representa a obra de fé de todo o povo brasileiro e seu amor singular pela Santíssima Virgem.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida está intrinsicamente ligada à história de sofrimento e escravidão do nosso povo, mas também à esperança da população afro-ameríndia que neste solo sofreram e foram mortos, vítimas da mais cruel maldade humana: a escravidão.  Quando celebramos a Padroeira do Brasil fazemos memória destes irmãos e irmãs sobre o olhar da Virgem morena que a todos consola e ampara com seu amor materno.

Baseado nos relatos, livros e sites de divulgação faço dessas memórias minha reflexão neste tempo tão oportuno. No início do século XVIII, a escravidão no Brasil era generalizada. A leste do estado de São Paulo, das profundezas das águas do Rio Paraíba, uma pequena imagem da Virgem Maria surgiu nas redes dos pescadores. Era uma imagem negra igual a cor dos filhos escravizados, foi encontrada partida em dois pedaços. Corria do ano de 1717.

Imediatamente após a “pesca milagrosa” do que distante outubro 1717, foi o povo comum, sem instrução, mas com uma fé profunda, para receber o primeiro dos grandes milagres. Diz-se, entre outros, de um escravo chamado Zacarias, que viveu em uma plantação de café, e, por ser não ser mais capaz de resistir a ferocidade de seus mestres, tinha fugido para a cidade de São Paulo. O dono de escravos o havia perseguido e acabou por encontrá-lo em uma floresta. Ele colocou sete quilos nas mãos e nos pés e arrastou-o pela rua. Só que, passando a capela de “Nossa Senhora Aparecida” o escravo pediu de todo o coração por sua ajuda e imediatamente abriu as cadeias principais para as mãos e pés. Diante disso, seu atormentador deixou-o ir. É por isso que a tradição diz que Nossa Senhora é negra: porque quer estar perto dos pobres e dos oprimidos; e naquela época os oprimidos eram os negros.

 A devoção à Imaculada Conceição da Virgem “Aparecida”, com o passar dos anos, tornou-se cada vez maior, e muitas graças foram obtidas. Tudo começou no século XVIII, quando alguns pescadores, que viviam as margens do Rio Paraíba do Sul lançaram suas redes nas águas para a necessária pesca, e, para a surpresa dos pescadores veio uma imagem decapitada em suas redes. Eles perceberam que era uma imagem da Mãe de Deus, era a Virgem de cor enegrecida pelo limo do fundo do rio.

A partir desse momento, na tradição brasileira, a Virgem Aparecida, sob o nome da Imaculada Conceição, tornou-se Mãe morena Senhora do povo brasileiro, e começou a atrair muitos devotos sobre sua proteção, os peregrinos começaram a percorrer a pé os caminhos do vale do Paraíba em direção a pequena vila para venerar a Mãe morena. Ao longo dos anos, a devoção à Virgem Imaculada Conceição “Aparecida” tornou-se cada vez maior, e muitas graças foram obtidas.

Depois da devoção dos pescadores e da primeira capelinha,  o vigário de Guaratinguetá construiu uma capela para acolher os fiéis peregrinos.  Assim foi construída uma capela para abrigar os numerosos fiéis peregrinos que já naquele século acorriam à virgem morena em busca de alento e proteção da Mãe. Em 1834, começou a construção de uma igreja maior, que mais tarde se tornou a “Antiga Basílica”, quando, em 1955, começaram as obras da gigantesca “nova Basílica”.

Em 1884, por decreto da Sé Apostólica, e por ocasião das comemorações do quinquagésimo aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, Nossa Senhora Aparecida foi coroada pelo arcebispo de São Paulo, na presença do Núncio Apostólico. Os Missionários Redentoristas são os custódios deste Santuário Nacional, cuidam com carinho da Pastoral do Santuário além da acolhida e atenção aos peregrinos. Os missionários chegaram em Aparecida no ano de 1893, vindos de Munique, na Alemanha.  Eles aceitaram a missão de cuidar do Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, tornando-se a primeira paróquia redentorista da América Latina. Em 1928 o Papa proclama a Virgem de Aparecida como Rainha e Padroeira do Brasil. Em 16 de julho de 1930 o mesmo arcebispo ao prestar outra homenagem a Virgem, desta vez foi uma homenagem histórica que marcará para sempre a devoção mariana no Brasil: ele proclamou publicamente e solenemente Nossa Senhora Aparecida como Padroeira oficial do Território Brasileiro, na presença de todas as autoridades civis e religiosas do País. Naquele mesmo dia, o cardeal Leme, meu antecessor neste sólio arquiepiscopal carioca, arcebispo do Rio de Janeiro, pronunciou a consagração do Brasil à Santa Virgem de Aparecida.

Na tradição brasileira, a Virgem Aparecida, sob o nome da Imaculada Conceição, que se tornou padroeira oficial do País, o povo a venera com filial amor e devoção de filhos e filhas muito amados. Multiplicando as graças espirituais e os benefícios neste lugar, foi necessário construir um templo maior e mais adequado, para atender às necessidades dos numerosos peregrinos; um templo que pôde ver a luz depois de anos de incessante trabalho e foi consagrado em 4 de julho de 1980 pelo querido Papa São João Paulo II, que confirmou o cuidado de todo o povo brasileiro à “Senhora Aparecida”.

São João Paulo II foi o primeiro pontífice a visitar o Santuário de Aparecida; durante a sua Peregrinação Apostólica, o devoto Papa disse em sua prece a Virgem Mãe Morena: “São conhecidas as peregrinações á Aparecida, às quais participam pessoas de todas as classes sociais e das mais diversas e distantes regiões do País, ao longo dos séculos. […] O que os antigos peregrinos estavam procurando? O que os peregrinos estão procurando hoje? Precisamente o que eles procuraram no dia, mais ou menos remoto, do batismo: a fé e os meios para alimentá-lo. Eles buscam os sacramentos da Igreja, especialmente a reconciliação com Deus e a eucaristia. Daqui eles saem fortificados e gratos à Senhora, Mãe de Deus e nossa “. disse o papa. (cf.  in prece do Papa João Paulo II a Mãe Aparecida- 04 de julho de 1980).

Aparecida é a cidade santuário, é o altar mariano do Brasil: em 1980, O Saudoso e querido Papa São João Paulo II deu-lhe o título de “Basílica Menor”.  O Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida é, também um local de celebração fraterna, um local de peregrinação do Povo brasileiro.

A Virgem Maria ocupa um lugar especial no coração do povo brasileiro. O culto mariano no Brasil está ligado à primeira evangelização da América Latina. De fato, os missionários, especialmente da Europa, espalharam essa devoção, transmitida de geração em geração. Ela é sempre a “Mãe querida”, a mãe amorosa, que acolhe, protege e suporta todos os que invocam com fé sincera. Muitas igrejas no Brasil são dedicadas à Virgem Maria,

O Brasil é o país com o maior número de fiéis católicos do mundo. Mesmo diante de tantas crises, dissidências, intolerâncias e perseguições a devoção do povo brasileiro continua alicerçado nas Escrituras que nos ensinam que Maria, como primeira discípula, nos indica o caminho para Jesus e nos ensina a obedecê-lo: “Fazei tudo o que Ele vos disser”;

E, no entanto, o povo brasileiro se reconhece sob a marca desta devoção mariana à “Virgem Aparecida”, profundamente enraizada na sensibilidade religiosa dos latino-americanos.

O Santuário de Nossa Senhora Aparecida é chamado de “capital da fé” e “capital Mariana do País”. Naquele solo sagado, do antigo Monte dos Coqueiros, o coração católico do Brasil pulsa e milhões de devotos se dirigem ansiosos por encontrar Cristo através de Maria que a todos acolhe e ao mesmo tempo inspira o ardor missionário e ação evangelizadora de seu povo.

Há um Brasil de praias belas e brancas, sol, futebol e samba. Há um Brasil das florestas da terra ressequida, das cidades superlotadas, das aldeias desertas e das favelas sem fim. Há um Brasil dos lugares evocativos cheios de mistério e paz. Em que o povo brasileiro reconhece o sentido da existência nos modos de culto e devoção, veneração popular da fé.  A peregrinação é assim um caminho de espiritualidade e oração.  O Povo brasileiro segue sua caminhada de fé e devoção á aquela que é amparo e proteção, é a Mãe querida senhora de Aparecida.

Neste mês de outubro tão cheio de comemorações renovamos nossa consagração de filhos e filhas brasileiros e brasileiras, especialmente neste ano de grandes acontecimentos, que requer decisões e acima de tudo discernimento de nosso Povo na construção de uma Brasil mais justo soberano e fraterno para todos. Que a Virgem Mãe morena interceda pelo nosso País a fim de que possamos viver com mais alegria a nossa fé, crescer no amor fraterno e incentivar o respeito pela dignidade da pessoa.

Acidente na Rodovia Dutra e a obstrução da rodovia, como disse acima, me impediram de fazer a clausura da Novena de Nossa Senhora Aparecida. Nas muitas horas em que fiquei parado naqueles momentos me coloquei em oração pedindo a Nossa Senhora Aparecida que abençoe o povo brasileiro e que nos congregue em torno ao Seu Filho Jesus testemunhando que um mundo novo é possível com aqueles que vivem a fé e contagiam as pessoas com a esperança e confiança. Viva Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil.

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