“Migrantes, itinerantes e refugiados preocupam a Igreja”, diz dom Maurício Grotto

O bispo responsável pelo Setor de Mobilidade Humana da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Botucatu (SP), dom Maurício Grotto de Camargo, em coletiva de imprensa na tarde desta quarta-feira, 29, na 47ª Assembleia dos Bispos, que acontece em Itaici, município de Indaiatuba (SP), chamou a atenção da imprensa para as questões migratórias no país.

O arcebispo relacionou as várias formas de migrações que com destaque para as causas. “No Brasil há cerca de 300 mil migrantes, aproximadamente. E essa mobilidade acontece por fatores diversos: violência, pobreza, situação econômica, falta de oportunidade para pesquisa e desenvolvimento profissional”, pontuou.

Citando números, dom Maurício afirmou que as migrações e imigrações do mundo já ultrapassam 200 milhões de pessoas. Uma população do tamanho do Brasil de migrantes, itinerantes e refugiados. Desses, 80% corresponde a mulheres. Só no Brasil esse número corresponde a 50 mil pessoas, principalmente vindas da América Latina. “O Brasil é atingido ativamente pelo tráfico de pessoas. Esse é o terceiro maior negócio ilícito do mundo, atrás somente do tráfico de drogas e armas, chegando a atingir crianças, jovens e idosos”.

O tráfico de pessoas levadas para a prostituição é outro dado apresentado pelo arcebispo que, segundo ele, é camuflado pela imprensa no Brasil. Dom Maurício afirmou que é mais fácil a imprensa do nacional mostrar as mazelas do exterior do que as suas próprias.

Questionado sobre de que forma a crise econômica contribui para o tráfico de pessoas, dom Maurício disse que os desdobramentos da crise em outras áreas influenciam no aumento desse negócio ilegal. “A pobreza influencia a mobilidade humana e o tráfico de pessoas; isso porque as desespera e faz com que se tornem presas fáceis de serem enganadas com propostas que nem precisam ser mirabolantes. Basta oferecer um emprego e um bom salário que as pessoas já se deixam enganar”.

Para dom Maurício, essa crise não é apenas econômica. Ele afirmou que trata-se de um colapso que tem como ponto central a economia, mas atinge outras áreas sociais. “É um ponto final de crises anteriores, como a crise cultural, humana e ética. Chegamos a isso por falta de ética, sobretudo”.

Grupos Étnicos

O arcebispo de Botucatu também deu ênfase aos grupos étnicos atingidos pela migração. Como exemplo, ele citou os povos indígenas e africanos. “Esse tráfico tem 500 anos. Ou seja, quando chegaram os portugueses aqui se encontravam 6 milhões de indígenas. Hoje temos pouco mais de 350 mil que lutam por terras e sua cultura. Da mesma forma, os africanos não foram libertados com a Lei Áurea, em 1888, mas ficaram sem pai nem mãe, perdidos no Brasil. A verdadeira liberdade da Lei foi concedida a elite fundiária brasileira que se libertou porque o trabalho do africano estava custando caro. O imigrante italiano foi trocado pelo escravo negro”.

Dom Maurício acrescentou que os afrodescendentes continuam perdidos no Brasil. Para ele, os dados da população negra de hoje refletem os escravos africanos de ontem. “Se olharmos para a população carcerária, podemos constatar que 80% são de afro-descendente; não por ser afro, mas porque eles foram literalmente excluídos, abandonados, sem que lhes descem possibilidade de vida digna. Os negros que conseguiram fugir antes da Lei Áurea, estão hoje em quilombolas e ainda lutam para ter suas terras regularizadas pelo Governo”.

Para tratar das imigrações e tráfico de pessoas com foco nos grupos étnicos, dom Maurício citou que a Igreja se apoia no trabalho desenvolvido pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI); na Pastoral Afrobrasileira e na Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Gripe Suína

“Por enquanto não adotamos uma postura oficial porque ainda não há certeza de que esse vírus tenha chegado ao Brasil”. Foi assim que respondeu o arcebispo quando questionado sobre a possibilidade da influência de imigrantes transmitirem a Gripe Suína que já infectou 114 pessoas em oito países e matou oito em 11 países de quatro continentes. Para dom Maurício, os principais responsáveis pela infecção não são os imigrantes, mas os turistas que são os que “mais viajam”. Ele chamou os turistas de “outra classe de migrantes”.

Documento e Encontro Nacional

O Setor de Mobilidade Humana da CNBB prepara um Documento sobre a realidade da Migração. Dom Maurício disse que o texto está em pleno processo de produção e que o material não se trata de um texto de denúncia, mas de “um instrumento de trabalho para a Igreja, que vai conter a geografia da Mobilidade Humana, no Brasil e a partir do Brasil, os documentos da Igreja e a Bíblia e orientações práticas para as paróquias e as dioceses”.

O arcebispo ainda informou que entre os dias 16 e 18 de setembro acontece em Brasília o 3º Encontro Nacional das Pastorais da Mobilidade Humana, no qual o Setor pretende lançar o documento.

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