Não Matar

É inegável que vivemos tempos difíceis e que a violência atinge níveis assustadores. Isso não ocorre só em nossa região ou país, basta ter olhos abertos para descortinar em todos os lugares do mundo até onde nos levou essa faceta da ambivalente globalização. Afinal a procura de convencer a todos que tudo se resolve com o econômico e com a competição imaginou-se que essa livre concorrência traria todas as soluções possíveis. Recebemos como prêmio a crise atual!

Até mesmo algumas linhas de pensamento teológico chegaram a confundir que bastaria um bem estar pessoal e familiar para resolver todos os problemas da pessoa humana, confundindo o tipo de “céu” que se estava anunciando. Assim é que muitos desprezavam a pregação cristã da “eternidade” como alienante por falar de ideais, educação, conversão e de uma vida que começa aqui mas que se plenifica junto de Deus.

Muitas vezes e em várias circunstâncias as pessoas confundiram a procura por uma vida melhor, por sistema políticos melhores com a violência com que ele seria conquistado. Não é de hoje em que os vários lados da realidade humana justificam as mortes e guerras dizendo que estão defendendo a vida do povo ou melhorias sociais para o mesmo.

Creio que necessitamos de leis claras sobre as violações dos direitos das pessoas até que se prove que elas merecem ou não a privação da liberdade ou uma reeducação para poder voltar à convivência social.

Os tempos são complicados e não basta uma única resposta e tampouco não queremos que nos imponham uma resposta que algum grupo tenha encontrado como a solução “salvadora” da situação humana hodierna.

Lembro isso devido à posição que nosso país tomou com relação a uma pessoa condenada em seu país e acabou sendo praticamente absolvida aqui. Falta só soltá-lo. Na luta contra a violência necessitamos de clareza: até onde podemos matar o próximo?   Já é praxe e todos concordam com o estatuto da legítima e proporcional defesa.

Agora surge a questão da ideologia: defendendo qual ideologia é permitido matar os outros? É claro que a história é contada pelos que estão no poder e defendem suas idéias, mas nós necessitamos de algo mais objetivo que sirva para todas as ocasiões em vista de uma justiça objetiva e não ao sabor da ideologia de plantão no momento.

Já discutimos sobre as questões dos “crimes” do passado e sobre as condenações e anistias. Quantos filmes já foram rodados sobre o assunto e quantas versões históricas já ouvimos sobre os mesmos fatos? A história vai sendo contada novamente sobre outros enfoques, o que não deixa de ser importante e interessante para que se vejam os diversos ângulos e se escute o outro lado da história que outros não contaram.

Mas entre as versões históricas diferentes dos mesmos fatos que a humanidade vive e os assassinatos de pessoas há uma grande diferente e põem em discussão a sociedade mundial. Para condenar pessoas que mataram outras até mesmo sob ordens já se “revirou” o mundo. Em vista de minhas idéias políticas eu posso matar a quem eu eleger como desafeto ou inimigo do regime aumentando assim o clima de violência e assim cometer “crime político” que não é condenável? Assim se traduz o atual ato do ministro da justiça de nosso país. Bastaria ter outra ideologia no comando do país que a condenação e absolvição seriam outras.

Já se discutiu muito sobre a questão dos “princípios” e da “objetividade” que também já foram alvos de contestação e que virou hoje o nosso “    relativismo”. Com isso vemos que onde “tudo é permitido” e não há orientações claras sobre limites e parâmetros não podemos reclamar da situação onde chegamos na questão da violência e das dificuldades de convivência entre as pessoas.

Eu estava justamente “filosofando” sobre esse ato teatral do ministro e sobre a realidade de nosso país. Espero que daqui a alguns anos não venham a acusar a Igreja Católica de não fazer ou dizer nada como fazem hoje até mesmo deturpando a história.  Os mesmo que se gabam da independência do país em tomar suas decisões (o que é verdade e necessário) são os mesmos subservientes com outros que humilham o nosso país em outras circunstâncias (que são fatos conhecidos e óbvios). Bons tempos em que as relações com o mundo eram mais coerentes e conseqüentes! Mas estamos no relativismo de que a versão dos que “vencem” é a que vale e é assim que a versão da história passa a ser contada.

Tenho impressão que muitos outros grupos existentes em nosso país irão querer justificar seus assassinatos por ideologias políticas. Grupos organizados de um lado ou outro que no fundo “querem” um país melhor (a seu jeito!) justificaria também nessa mesma direção as barbaridades que cometem. Já ouvimos falar de muitas situações parecidas onde tudo se justifica matando as pessoas que não quiseram aderir a uma idéia política e assim deveriam ser (e milhares foram!) eliminados.

Creio que os nossos estudiosos do direito poderiam aprofundar esse tema e dizer até onde se pode matar além da legítima defesa. Já se justificou a morte dos “embriões humanos” e o grupo “pró-aborto” segue sempre tentando conseguir brechas na legislação para matar os inocentes sem ser condenado. Falta agora justificar oficialmente esse tipo de assassinato que, de certa forma, já foi até defendido pelo primeiro servidor público da nação. Eis uma interessante discussão jurídica e política que, em tempos de objetividade, seria um grande aprofundamento, embora hoje não sei se temos essa clareza e imparcialidade.

Ao nos aproximar da Campanha da Fraternidade sobre Segurança Pública é bom discutirmos esses assuntos para ver se é possível mudar as mentes e corações para valorizar a pessoa onde quer que esteja ou quem quer que seja.

Construir uma cultura de paz não é fácil, supõe uma visão crítica de nossa realidade e das posições que nossos governantes tomam em suas decisões polêmicas. Só sei que não ajuda em nada justiçar a matança de inocentes por razões políticas e ideológicas. Eis uma boa discussão jurídica que abre também o assunto sobre a violência que assola o nosso país.

Dom Orani João Tempesta

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