Nas pegadas do redentor

Há, entre os hinos religiosos que hoje entoamos inclusive na liturgia da missa, um que muito nos fala sobre a missão:”Vejam, eu andei pelas vilas/ apontei as feridas, como o Pai me pediu./ Portas, eu cheguei para abri-las,eu curei as feridas/como nunca se viu.”

Repletos do Espírito Santo, já naquela manhã de Pentecostes, depois que Pedro proclamou para toda a Casa de Israel que Aquele a quem eles crucificaram e que ressuscitara dos mortos fora constituído por Deus como o Cristo e Senhor, os apóstolos anunciaram o caminho da conversão e da fé.(At.cap.2)

Durante sua vida pública, Jesus ao enviar os discípulos para a missão,instruiu-os a levar a paz a todos os que os recebessem, curando os enfermos e anunciando o novo Reino.(Luc. 10, 1-16). E no discurso apostólico, narrado por Mateus (cap 10), não é diferente a ordem: o anúncio da Boa Nova do amor e da plena entrega a Deus.

Nada se fala de uma doutrinação, de apresentação de um conjunto de regras a serem cumpridas. A missão é clara. É chegado o novo tempo predito por Isaias:”O Espírito do Senhor está sobre mim, eis porque Ele me ungiu e enviou a anunciar a Boa Nova aos pobres, curar os corações contritos…(Is. 61)

O grande anúncio missionário a que fomos chamados a levar a todos não é um conjunto de doutrinas que enfeixam e amarram a Boa Nova. No mesmo capítulo de Lucas, um legista, que vivia prisioneiro de tantas prescrições farisáicas, queria experimentar Jesus e perguntou-lhe o que deveria fazer para ganhar a vida eterna. O divino Mestre não lhe dá um manual doutrinário, mas aponta o fundamento único do Reino: o amor.

Muitas vezes nas nossas lides apostólicas preocupam-nos muito mais que o anuncio da libertação pela fé e o amor, as prescrições doutrinárias. E aqueles que estão ansiosos pela vida não a vêem na riqueza evangélica diante das exigências negativas, dos fardos pesados, como o dos fariseus, que deles exigimos como absolutos, e não como que nascendo espontâneos da fé.

Não que a doutrina não seja necessária para o crescimento da vida cristã, especialmente numa comunidade. Mas é fato seqüencial decorrente de uma vida nova de libertação.

A conversão se dá em primeiro lugar pela aceitação do Cristo e do mistério da redenção, que nos concita a deixar uma vida de pecado para vivermos a vida da graça. “Convertei-vos e crede no evangelho” diz-nos a Igreja ao impor sobre nossas cabeças as cinzas penitenciais na quaresma.

Não vamos substituir as cadeias em que vivem os que estão nas trevas do pecado, por pesadas correntes de preceitos, senão mostrar-lhes a liberdade dos filhos de Deus. Nossa missão é abrir-lhes os corações, para que se deixem conduzir pelo Espírito de Deus e se reconheçam filhos do Pai Celeste. E este espírito não é o espírito de escravidão, para recair no temor, mas o que nos faz livres para clamarmos com confiança, Pai, meu Pai ( Rm. 8,14-17).

Naquele mesmo hino a que nos referimos no começo deste artigo, há outra estrofe que reflete o pensamento que vimos desenvolvendo: “Veja, eu quebrei as algemas,/ levantei os caídos,/ de meu Pai fui as mãos./ Laços , recusei os esquemas, eu não quero oprimidos/ quero um povo de irmãos”.

À imitação de Cristo, deve ser nosso apostolado. Alegre e livre para que todos vejam esperança que nossa pregação possa trazer a todo um povo sofrido. ‘’Significa isto”, diz-nos o S.Padre, na sua Carta Encíclica Spe salvi, “que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova”.

Que por onde andarmos, pela nossa vida e nossa pregação possamos irradiar a Luz de Cristo que dissipa as trevas e conduz-nos à certeza da Vida.

Dom Eurico dos Santos Veloso

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